O levante dos camponeses indígenas é uma clara expressão do esgotamento do regime assassino do presidente Álvaro Uribe, que ao longo dos seus seis anos de poder matou mais do que as ditaduras militares, com o dinheiro e as armas do imperialismo norte-americano e do paramilitarismo28 de outubro de 2008

 

 

Após mais de uma semana de marcha que reuniu 50 mil camponeses indígenas, operários e diversos movimentos populares de todo o País, a reunião prevista para acontecer em Cali entre o presidente Álvaro Uribe e representantes indígenas não aconteceu.

O presidente colombiano aproveitou a fuga inesperada do ex-parlamentar Oscar Tulio Lizcano, refém das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) por oito anos, para fugir de suas obrigações. Ele chegou a ensaiar uma chegada à Cali, capital do departamento de Valle del Cauca (Sudoeste), mas dedicou todo o seu tempo à fuga do ex-prisioneiro político das FARC e também de um guerrilheiro desertor conhecido como “Isaza”, que ajudou o ex-parlamentar a fugir.

 

A reunião estava marcada para acontecer às 9h do horário local (12h em Brasília) do domingo, na qual se discutiria uma pauta de cinco pontos reivindicados pelos camponeses, como a devolução de suas terras ancestrais e o fim dos assassinatos e perseguições contra a população indígena e camponesa. Durante o governo Uribe (no poder desde 2000), mais de 1.400 camponeses foram assassinados e dezenas de milhares foram expulsos de suas casas.

Uribe é o principal articulador de grupos paramilitares de extrema-direita responsáveis pela brutal repressão dos camponeses e operários colombianos. Foram assassinados também sindicalistas, estudantes e intelectuais de esquerda, muitos dos quais estão desaparecidos até hoje, uma verdadeira ditadura da burguesia pró-imperialista, apoiada pela CIA e pela Casa Branca contra os trabalhadores colombianos.

Os camponeses são expulsos de suas casas e suas terras são roubadas e entregues para latifundiários e empresas multinacionais que se apropriam dos recursos naturais sob o respaldo do governo, da polícia e da imprensa. Com o pretexto de combate à guerrilha – da mesma forma que o imperialismo assume a sua “luta contra o terrorismo” – o governo colombiano recebe bilhões de dólares dos EUA para manter um regime de terror contra os trabalhadores.

Os milhares de indígenas aguardavam a presença de Uribe no Centro Administrativo Municipal, mas ele só apareceu quando a maioria dos presentes já havia se dispersado, alegando compromissos extraordinários sobre a fuga do ex-parlamentar e do desertor. Uribe sugeriu ainda que a reunião transcorresse através de uma videoconferência, às portas fechadas, mas a proposta somente obteve um amplo repúdio por parte dos indígenas.

A forma de como a reunião seria realizada também foi uma evidente manobra para dispersar mais manifestantes e desmoralizar a concentração massiva. Furiosos, os indígenas presentes começaram a insultar Uribe chamando-o de “paraco, paraco” (paramilitar).

Uma próxima reunião agora está fora de cogitação, com o governo alegando estar muito ocupado com o novo fato inesperado da libertação de um refém e da deserção de um guerrilheiro. Uribe está fugindo das reivindicações dos camponeses indígenas que mostram uma clara tendência de se sublevar contra este Estado terrorista representado pelo cão de guerra do imperialismo, Álvaro Uribe.

A marcha, no entanto, não se dispersará em Cali. Com a recusa de Uribe, a multidão se locomoverá para a capital, Bogotá, onde tentarão novamente pressionar Uribe para as suas reivindicações.
 
Esgotamento do regime 

Dezenas de milhares de indígenas camponeses, operários e diversos movimentos populares percorreram 120 quilômetros pela rodovia Panamericana – que vai do Sul da Argentina até o Alasca – numa manifestação pacífica pelos seus direitos.

No dias 14, 15 e 18 de outubro, a Força Pública colombiana reprimiu brutalmente os camponeses na região de La María. Os indígenas bloquearam a rodovia e a polícia transformou uma manifestação pacífica num massacre. Mais de 120 pessoas foram feridas à bala e duas foram mortas selvagemente. Famílias estão sendo expulsas de suas casas, que são incendiadas pela polícia e os paramilitares.

Esta é a resposta mais eloqüente que o setor mais explorado e oprimido da Colômbia dá ao governo assassino desde que Uribe assumiu o poder em 2002. Desde então, o Exército e os paramilitares perseguem e exterminam os trabalhadores que se organizam contra o regime cão raivoso do imperialismo. As organizações operárias e camponesas, bem como toda a juventude não podem esperar nada de Uribe, pois este não é mais do que um mero instrumento do imperialismo dentro da América do Sul, o quintal das ações terroristas do imperialismo norte-americano.

Os trabalhadores devem atuar de forma independente, levantando desde as reivindicações mais imediatas até a expropriação do latifúndio e de toda a propriedade privada.

O movimento dos camponeses indígenas reforça também a greve dos cortadores de cana, que dura desde o dia 15 de setembro e que a imprensa burguesa insiste em fingir que não existe.
 
Depois de Uribe…

 

Na Colômbia, o governo de Álvaro Uribe é a maior expressão da política direta do imperialismo no subcontinente. Uribe está na América do Sul assim como Pervez Musharraf estava para o Paquistão, país chave para a estabilização política e econômica no Sul da Ásia. Neste país, o governo caiu totalmente apodrecido. Musharraf foi obrigado a abrir mão do seu poder de general e de presidente para conter uma revolução que continua em marcha. No caso da Colômbia, Uribe segue na mesma direção.

Caminha para sua própria liquidação e, sabendo disso, já articula uma alternativa junto ao imperialismo. Uma alternativa bastante razoável para esta troca de poder ser a ex-candidata presidencial e ex-prisioneira política, a franco-colombiana Ingrid Betancourt, que logo após ser libertada de seis anos em poder das FARC, assumiu abertamente apoiar Urine nas próximas eleições presidenciais. Este apoio pode se materializar na forma de sua própria candidatura.

Se Betancourt vier mesmo a se candidatar, a possibilidade de uma vitória eleitoral está absolutamente colocada. Símbolo da demagogia do governo terrorista colombiano contra a guerrilha, ela se tornou um ícone em todo o mundo, somado ao trânsito livre que já tinha muito antes de ser capturada pelas FARC, entre diplomatas e governos de vários países, principalmente a França, onde viveu durante alguns anos e também onde teve um romance com nada menos que o asqueroso Dominique Villepin, aquele que insuflou a ira dos imigrantes argelinos ao chamá-los de “escória”.

A mega manifestação que os camponeses indígenas colombianos estão demonstrando não é um acontecimento menor, restrita somente a este País, mas mostra o estágio terminal da crise do regime abertamente pró-imperialista na Colômbia e em toda a América Latina, como no Peru, do presidente Alan Garcia, que igualmente à Uribe, assassina os trabalhadores e ordena a polícia a atirar contra as manifestações. São resquícios da dominação direta do imperialismo, prestes a serem derrubados – pela via eleitoral ou não, tal como foi na Bolívia, Equador, Venezuela, Uruguai e Paraguai. Estes são todos governos de frente popular, ou seja, governos que se formaram sobre uma base política vinculada ao movimento de massas para contê-lo depois do fracasso dos uribes. Tratam-se de governos eleitos pela burguesia para conter a tendência revolucionária dos trabalhadores da cidade e do campo.