a natureza está ficando furiosa19/06/2007

Na presença da ministra Marina Silva, indio Saterê-Mawe relança a Aliança dos Povos da Floresta

Foto: Romerito Aquino

por Romerito Aquino

 

“Muita coisa ruim está sendo feita na Amazônia e é, por isso, que a natureza está ficando furiosa”. Foi o que disse ontem o índio Jecinaldo Saterê-Mawe, dirigente da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) durante cerimônia de lançamento, no Hotel Mercure, em Brasília, do II Encontro dos Povos da Floresta, que vai se realizar de 18 a 23 de setembro próximo na capital federal reunindo mais de 10 mil índios, seringueiros, ribeirinhos e outros povos da floresta amazônica.

O índio Jecinaldo abriu a cerimônia onde se encontravam a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e representantes do Banco Mundial, da Unicef, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), governos do Acre, Amazonas, Pará e Amapá, ministérios do Meio Ambiente e do Desenvolvimento Agrário, Secretaria Nacional da Juventude e da Presidência da República, além de vários ambientalistas, dirigentes de movimentos sociais e coordenadores de entidades de cooperação nacional e internacional com atuação na Amazônia, todos apoiando o evento.

Anunciando a retomada da Aliança dos Povos da Floresta, que ocorreu durante o primeiro encontro, liderado em 1987 pelo ecologista e seringueiro acreano Chico Mendes, o coordenador da Coiab destacou que o lançamento do segundo encontro representa a reação dos povos da floresta na luta contra o meio ambiente e a miséria que impera entre as populações tradicionais da Amazônia. “O lançamento do encontro significa a reação. Significa dizer que nós não vamos aceitar essas atitudes do poder econômico, do modelo que leva à miséria das populações da Amazônia”, disse o índio.

 

Mesa do lançamento da Aliança dos Povos da Floresta

 

O seringueiro Joaquim Belo, representando o Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS), que forma com a Coiab e o Grupo de Trabalho Amazônico (GTA) as três redes sociais que lideram a aliança dos povos da floresta, disse que a retomada do movimento unificado dos povos da floresta vai representar uma grande luta em favor da preservação da Amazônia e da emancipação econômica e social de seu povo.

“Temos uma força muito grande. Com essa força somada, como está sendo proposto agora, estamos consolidando um grande encontro que vai dar um passo muito grande no sentido de fazer o enfrentamento na disputa tão desonesta e tão perversa que acontece na Amazônia, onde existe a grande riqueza, uma riqueza que está em disputa”, disse Belo. Segundo ele, o movimento dos povos da floresta reconhece que têm sido tomadas medidas importantes por parte do governo, mas elas não têm sido suficientes para atender a população da região amazônica.

“Reconhecemos que tem havido por parte do governo medidas importantes, mas não têm sido suficientes, principalmente no que se refere às políticas públicas na implementação das ações. A maioria dos nossos órgãos nas pontas não existe e é no que a gente se apóia para fazer as coisas acontecerem. A retomada das alianças também é para construir alianças com o próprio estado, com os poderes municipais, estaduais e federal”, assinalou o representante dos seringueiros.

 

Várias lideranças presentes ao lançamento do II Encontro

 

 

Marina aposta na aliança para o avanço social

No discurso de encerramento da solenidade, a ministra Marina Silva ressaltou o fortalecimento das relações entre os povos. “Temos de celebrar o esforço dessas comunidades historicamente marginalizadas, que foram capazes de ampliar uma aliança fundamental para recuperar a sua história e avançar socialmente”, disse. A ministra lembrou que, desde a chegada dos portugueses, o Brasil conviveu com o massacre de 1 milhão de índios a cada século, em média. “Precisamos resgatar essa dívida com as comunidades tradicionais”, disse a ministra, citando seringueiros, pescadores, quebradores de coco, entre outros.

A cerimônia de lançamento do segundo encontro reservou homenagens póstumas a Chico Mendes, com músicas e recitação de poemas. A moderadora da mesa, a antropóloga Zezé Weiss, ao anunciar que também Marina Silva seria homenageada, afirmou que a ministra personifica Chico Mendes nesses 19 anos de sua morte, por meio de incessantes atividades em favor do meio ambiente. Marina recebeu flores e uma peça de artesanato, entregues por representantes das comunidades tradicionais.

Marina Silva também destacou na solenidade as conquistas do governo federal para contribuir com o desenvolvimento dos povos das florestas. Citou os 18 milhões de hectares em reservas extrativistas criadas nos últimos quatro anos. “E nos próximos meses teremos mais 8 milhões de hectares para este fim”, afirmou a ministra, que enfatizou, ainda, os 10 milhões de hectares em terras indígenas homologadas também na primeira gestão do governo Lula, bem como o combate ao desmatamento, com redução de 50% na Amazônia em dois anos, e 75% na Mata Atlântica.

Por fim, a ministra do Meio Ambiente destacou o compromisso do governo em conciliar crescimento econômico com proteção ambiental. “Precisamos juntar o melhor da tradição e o melhor da modernidade. O mesmo governo que apóia as comunidades tradicionais, também apóia o crescimento econômico. O mesmo banco que apóia os povos das florestas, também apóia os produtores. Então precisamos unir os objetivos na mesma equação”, disse.

Marina Silva reforçou a necessidade de ser criada uma nova estrutura para enfrentar a grave crise ambiental que o mundo atravessa, além de ter condições de gerir as unidades de conservação. “É injusto ficar oito anos no governo e deixar a mesma estrutura que existe há 20 anos. Quando o Ibama foi criado, em 1989, tínhamos 113 unidades de conservação, somando 15 milhões de hectares. Agora são 288 unidades, com 60 milhões de hectares. E chegaremos em 2010 com 90 milhões de hectares. Precisamos de uma nova estrutura, orçamento e pessoal para cuidar desse patrimônio”, disse Marina.

O II Encontro Nacional dos Povos das Florestas terá sua abertura no dia 18 de setembro, no Teatro Nacional, em Brasília e, nos dias seguintes, as atividades ocorrerão em uma área que será montada no Jardim Zoológico do Distrito Federal.