Povos da floresta se reúnem em Braslia15/06/2007

Índios Ashaninka (AC)

Fotos: Sérgio Vale e Joaquim Tashka

 

por Romerito Aquino


 

         Preservar a floresta amazônica todos querem e faz muito bem ao planeta e à humanidade. Mas quem vai se beneficiar diretamente dessa preservação? É a grande pergunta e o grande desafio que está posto sempre.

 

         Pela historia da Amazônia, quem sempre tratou de cuidar da floresta foram os povos que nela vivem. São os índios, os seringueiros, os ribeirinhos e as demais populações tradicionais que a ocupam desde os tempos imemoriais. E nada mais justo do que sejam agora esses povos os primeiros a se beneficiarem de tal preservação, usando a floresta de forma sustentável para transformá-las em riquezas capazes de aplacar a fome e a miséria que hoje graça na região.

 

         Essa será, em suma, o objetivo maior do II Encontro Nacional dos Povos das Florestas, que está programado para ocorrer em Brasília, de 18 a 23 de setembro deste ano, despertando a atenção nacional e do mundo para os direitos de todos os povos da floresta amazônica de nela viverem e dela poderem tirar o sustento de suas famílias, de forma sustentável e sem destruí-la.

 

O II Encontro Nacional dos Povos da Floresta será lançado nesta terça-feira, dia 19 de junho, em cerimônia prevista para ocorrer às 15 horas no Hotel Mercure Brasília, com a presença de todas as lideranças da Amazônia e da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva.

 

Segundo os organizadores, o segundo encontro marca a retomada da Aliança dos Povos da Floresta, que é formada pelas três principais redes sociais do Brasil e da Amazônia: a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), o Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS), e o Grupo de Trabalho Amazônico (GTA).

 

O objetivo do II Encontro é debater alternativas à implementação de políticas públicas e o desenvolvimento sustentável da Amazônia e das florestas brasileiras. Também visa a discutir ações de conscientização sobre os efeitos das mudanças climáticas, e a definir uma agenda para acelerar o processo de redução da pobreza entre as comunidades das florestas.

            

           Índios Yawanawá, de Tarauacá (AC) 

O paradoxo da pobreza na floresta rica

 

O índio Jecinaldo Barbosa Cabral, coordenador-geral da Coiab, é quem define bem a importância do segundo encontro para a Amazônia e suas populações tradicionais. “Nesses 20 anos, a aliança não parou. Cada uma das organizações cuida de sua agenda e articula estratégias para definir um modelo adequado de proteção à Amazônia. Não queremos um desenvolvimento injusto, que leve ainda mais os povos que milenarmente protegem a floresta à pobreza”.

 

O Vice-presidente do Conselho Nacional dos Seringueiros, Julio Barbosa de Aquino, falou ao site do GTA que os debates estarão focados nos temas ligados às mudanças climáticas. “Com o evento, vamos destacar a necessidade de fortalecer as políticas de proteção do nosso patrimônio natural”, acredita.

 

Ex-prefeito por oito anos da terra natal do ecologista Chico Mendes (Xapuri), Júlio Barbosa destaca uma série de avanços obtidos nessas duas décadas de luta pela proteção aos povos da floresta: a criação de 59 reservas extrativistas; a demarcação de terras indígenas; a retomada da aliança, cujos protagonistas, os índios e os seringueiros, participam ativamente das discussões à implementação de políticas públicas; a criação da Câmara Técnica de Proteção ao Patrimônio dos Povos das Florestas e o Programa Piloto para a Proteção das Florestas Tropicais do Brasil, iniciativa do governo e da sociedade brasileira, em parceria com a comunidade internacional.

 

Por sua vez, o secretário Geral do GTA, Adilson Vieira, considera que o grande patrimônio deste encontro vai ser a troca de experiências entre diversos atores sócias da região que se encontrarão na capital federal. Muitos terão o primeiro encontro com outros atores de outras partes da Amazônia. O movimento socioambiental sairá fortalecido desse encontro e unido para buscar melhorias para os povos das florestas.

 

Para os seis dias do evento, a organização espera mais de 10 mil pessoas. A idéia é reunir lideranças indígenas, quilombolas, seringueiras e extrativistas; ambientalistas e dirigentes de movimentos sociais; além de empresários, autoridades e representantes das entidades de cooperação nacional e internacional.

 

O primeiro encontro foi realizado em 1987, na cidade de Xapuri, no Acre, sob a coordenação de Chico Mendes, líder seringueiro assassinado em 1988, naquele mesmo estado. Na segunda edição, o evento conta com a parceria do governo federal, de diversas ONGs e fundações, além dos governos do Acre, Amapá e Amazonas. Veja quem são as redes sociais que organizam o II Encontro Nacional.

          

      Festival de cultura e arte dos Yawanawá (AC)

Quem são os organizadores

 

Coiab – A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) surgiu em 1989, com objetivo de articular estratégias de luta desenvolvidas pelas organizações indígenas da Amazônia. A ONG tornou-se referência para o fortalecimento e consolidação do movimento em defesa dos direitos coletivos dos povos indígenas, conquistados na Constituição de 1988. A Coiab reúne hoje em sua base política 75 organizações regionais, que articulam centenas de outras entidades indígenas locais e 165 povos indígenas.

 

CNS – Criado em 1985, o Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS) é uma organização de âmbito nacional, que representa trabalhadores agroextrativistas organizados em associações, cooperativas e sindicatos. A ONG luta pela melhoria da qualidade de vida, pelo uso sustentável dos recursos naturais da Floresta Amazônica e pelo direito a terra.

 

GTA – A Rede Grupo de Trabalho Amazônico (GTA) atua desde 1992 na Amazônia Brasileira. A ONG é formada por dezoito coletivos regionais em nove estados brasileiros. A GTA trabalha em experiências ligadas à mudança do paradigma de desenvolvimento humano na Amazônia e atua diretamente nos estados do Amazonas, Acre, Amapá, Rondônia, Roraima, Tocantins, Pará, Maranhão e Mato Grosso, ou seja, em toda a Amazônia Legal.