O cacique da tribo indígena trumai, Ararapan Trumai, 56, e seu filho Mayaute Trumai, 27, disseram em depoimento à Justiça Federal, que retiraram madeira do Parque Indígena Xingu, extremo norte de Mato Grosso, e trocaram a carga por uma caminhonete.

Em outras ocasiões, eles teriam sido trapaceados por empresários do ramo madeireiro que iam às aldeias, levavam madeira da espécie Itaúba, mas não pagavam nada. Só um madeireiro teria dado um calote de R$ 3,3 milhões nos trumai.

Pai e filho foram presos no mês passado na operação da Polícia Federal, que ficou conhecida como Mapinguari. Quarenta e oito pessoas foram processadas por suposto envolvimento com uma quadrilha que negociava madeira extraída do parque.

Elas, incluindo três índios, são acusadas de exploração ilegal no interior e no entorno do Parque Indígena do Xingu e vão responder por estelionato qualificado, falsidade ideológica, crimes ambientais, furto e receptação, entre outros crimes

Integram o bando, segundo o Ministério Público Federal, grileiros, fazendeiros beneficiados com fraudes na Intermat, órgão do governo mato-grossense que regulariza as terras, consultores florestais, servidores públicos e os índios.

Informações divulgadas pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), revelam que nos últimos anos, foram extraídos, ilegalmente, cerca de 40 mil metros cúbicos de madeira do interior do parque.

Os trumai foram soltos logo após depor ao juiz federal Julier Sebastião da Silva, ontem à tarde, quarta-feira (12/06).

Logo depois da audiência de ontem, o procurador da Republica Mauro Lúcio Avelar entendeu que “o exame dos depoimentos colhidos, além de esclarecer e identificar parte dos autores dos crimes praticados indica terem sido os membros da comunidade indígena vítimas da ação da referida quadrilha”.

O cacique Ararapan disse que os trumai somam 800 pessoas que vivem em quatro aldeias. O índio contou que seu povo vive da roça, como cultivo de mandioca, banana e outras frutas.

Em 2004, afirmou ele, um madeireiro conhecido como Fábio Júnior, apareceu na aldeia e propôs negociar uma caminhonete L200, marca Mitsubishi, ano 2002, por um lote de 470 metros cúbicos de madeira Itaúba.

A troca foi feita, mas o tal Fábio Júnior, embora tenha prometido, nunca entregou o documento do veículo aos índios. Antes, porém, no depoimento, o índio disse que por sua comunidade ser pequena, não recebe ajuda da Funai, entidade nacional criada só para cuidar dos interesses dos índios.

Ararapan disse ainda que a sua tribo derrubara grande quantidade de madeira Itaúba para “montar pasto” e que essa carga seria negociada com o madeireiro Gilberto Meyer. O cacique disse ter procurado o Ibama para saber se poderia ou não vender a espécie, mas a instituição teria informado a ele que era para aguardar um estudo.

Ocorre que, segundo o cacique, antes de o estudo ficar pronto, Meyer, também preso na operação Mapinguari, levou o carregamento sem dar nenhum centavo pela mercadoria.

O índio tentou receber pelo negócio procurando a Funai. O combinado com Meyer seria o pagamento de R$ 100 por metro cúbico da madeira.

A TRAPAÇA

No depoimento, o cacique não quantifica a madeira derrubada. Ararapan contou à Justiça Federal que pediu a Gilberto Meyer que serrasse uma carga de madeira para ele. Seriam quatro carretas carregadas de Itaúba.. Acontece que, segundo o cacique, Meyer lhe devolveu a madeira serrada, mas de uma espécie bem inferior a que havia sido levada, no caso a Itaúba.

Em outra ocasião, ainda segundo o cacique, Gilberto Mayer prometera doar aos índios trumai uma caminhonete também da marca Mitsubishi, uma L200, mas não cumpriu a promessa.

O índio chegou a ser levado a uma concessionária na cidade de Sinop para escolher o veículo. Ararapan disse que Meyer se escondia quando procurado na cidade onde mora, em Vera. O cacique contou em depoimento à Justiça Federal que, para se esconder dos índios, contava com a ajuda de policiais militares da cidade.

Gilberto Meyer teria explorado madeira na aldeia dos índios por pelo menos um ano, segundo o cacique. E sempre teria trapaceado a comunidade indígena. Em determinados casos, Meyer prometera pagar hospedagem e alimentação aos índios quando estes iam à cidade de Vera, onde faziam compras também em um supermercado.

Nem isso Meyer cumpria, narrou o índio. O dono do mercado estaria cobrando dívida dos índios. Em Vera, os índios ficavam hospedados num hotel de Meyer. Já na cidade de Feliz Natal, os trumai se hospedavam num hotel indicado por Meyer, mas a conta não fora paga e a comunidade tem sido cobrada pelo comerciante. Os índios iam para a cidade com garantia da hospedagem e alimentação porque sabiam que Meyer tirava madeira da aldeia e não dava dinheiro aos índios, segundo depoimento do cacique.

DINHEIRAMA

O filho de Ararapan, Mayaute Trumai, conhecido como Maitê, deu a mesma versão do pai à Justiça Federal. Disse que Ararapan sempre negociara madeira com Gilberto Meyer, mas que nunca recebera dinheiro por isso. Ele disse que Meyer retirou da aldeia Trumai 33 mil metros cúbicos de Itaúba.

Considerando o depoimento de Ararapan, Meyer teria levado da aldeia trumai algo em torno de R$ 3,3 milhões em cargas de madeira. É que ele havia combinado com Meyer que cada metro cúbico de Itaúba valeria R$ 100,00. Confirmado isso, caso os índios recebessem pela madeira retirada de modo ilegal do parque, os trumai poderiam comprar uma fronta de ao menos 70 caminhonetes seminovas.

O Parque Indígena do Xingu, fora criado em 1961, quando o país era governado por Jânio Quadros e mede algo em torno de 27 mil quilômetros quadrados ou 2,8 milhões de hectares, isso se incluídas as terras indígenas. Lá, vivem algo em torno de 5,5 mil índios de tribos diferentes.

A Justiça Federal vai ouvir nos próximos dias as outras 45 pessoas envolvidas na exploração ilegal de madeira.

No dia da operação Mapinguari, 16 de maio passado, 31 pessoas foram capturadas, das quais 17 permanecem presas. Quatro pertencem à família do cacique solto ontem, um deles um filho de 16 anos de idade.

in A Notícia