O vídeo da Arkhos vendendo a Amazônia rende polêmica. Publicações nacionais correm o risco de passar ao largo de uma postura criminosa e inaceitável
por MONTEZUMA CRUZ

BRASÍLIA – O vídeo da Arkhos Biotech vendendo a Amazônia rende polêmica na rede. Virou assunto de jornais, emissoras de rádio, blogs e sites. Seria diferente? Não. Contudo, alguns procuram minimizar uma reportagem e abafar o pronunciamento de respeitados parlamentares.

Algumas publicações do eixo Rio-São Paulo perguntam: falso ou verdadeiro? Correndo o risco de passar ao largo de uma postura criminosa, inaceitável, repugnante. Pode-se oferecer a presunção de inocência a quem estaria brincando com fogo, consciente de que traz prejuízos internos e externos ao País?

Um vídeo pernóstico e perigosíssimo, com ares de didático, está em cena no mesmo instante em que o site Amazônia para sempre faz circular o sempre meritório Movimento Amazônia Para Sempre, sem fins lucrativos e que coleta assinaturas eletrônicas para denunciar o desmatamento na região. No mesmo momento em que se estudam detalhadamente as águas do Xingu, com o uso de imagens de artistas e modelos. Na mesma hora em que ONGs ditas de conservação prospectam minérios e roubam insetos e plantas do território indígena. Na mesmíssima hora em que alguns governantes dilapidam o patrimônio regional, incluindo-se o rico subsolo mineral.

Mesmo que fosse uma arte de criança, não se aceita jogar a sujeira de um Arkhos para baixo do tapete, ou da lixeira cibernética. Por quê e para quê?

Paralelamente ao famigerado Arkhos, seja qual for a origem, o conteúdo e o feitio lingüístico do seu site, vemos situações positivas campeando nas caixas postais e nos monitores. O site Amazônia para sempre, autor de uma delas, tem repudiado a comemoração do “menor desmatamento da Floresta Amazônica dos últimos três anos: 17 mil quilômetros quadrados, quase a metade da Holanda”. “Quando se desmata 16%, isso equivalente a duas vezes a Alemanha e três vezes a área do Estado de São Paulo”, adverte o site.

Noticiar e opinar com seriedade são direitos inalienáveis de quem está na internet com boas intenções, acredita-se. E há bem intencionados, felizmente.

No entanto, assessores ministeriais sugerem à Agência Amazônia que se cale “para não espantar a lebre”.

O que choca não é o fato, mas a sua publicação.

O senador Arthur Virgílio está certo ao revelar o caso no Congresso, seja a empresa fictícia ou não. De outro lado, convida à reflexão este apelo, contido na página do laboratório em discussão: “Deixar a Amazônia nas mãos dos sul-americanos é condená-la à extinção rapidamente. Ao propiciar ao mundo a chance de intervir no destino da floresta, a humanidade pode estar dando o único passo possível para salvar a Amazônia”. Isso cheia a rapinagem em essência.

Há exemplos de preocupação na rede que merecem o reconhecimento público. Não fosse uma campanha bem feita pelo Grupo de Trabalho Amazônico (GTA), o cupuaçu estaria hoje nas mãos da Asahi Foods, do Japão. Não houvessem as manifestações a respeito daquele dito mapa de uma “Amazônia Internacional, dividida” — entre os quais este escriba se inclui — também não se chegaria à origem daquela história. E fomos à raiz do dito cujo. A história, todos sabem.

O que a sociedade brasileira oferece em troca, pela manutenção desse patrimônio com biodiversidade incomparável e rica, com seres humanos incríveis, com uma fonte incalculável de riquezas minerais, petróleo e gás natural no subsolo e mais de 20% da disponibilidade de água doce do planeta? — perguntamos, lembrando o jornalista e poeta manaura Simão Pessoa.

Parodiemos Cecília Meirelles, não é isto, ou aquilo; mas isto e aquilo.