por Chico Bruno
publicado em 1ªHora – 29/03/2007

Navegando pela internet, deparei-me com o sítio da empresa Arkhos Biotech, que tem uma unidade instalada em Itacoatiara, no Amazonas, e se auto-intitula líder mundial na distribuição de sistemas concentrados extraídos de óleos de frutos tropicais e uma das maiores fabricantes do mundo de ativos vegetais para a indústria cosmética e farmacêutica. A empresa atua na Amazônia brasileira desde o final da década de 80 e se diz reconhecida internacionalmente por atuar norteada pelo conceito de desenvolvimento sustentável.

O xis da questão é que Arkhos Biotech lançou recentemente a campanha “Amazônia para todos”, inspirada, quem sabe, no slogan do governo Lula “Brasil para todos”, mas que vem a ser a defesa da internacionalização da Amazônia através da sua privatização.

A empresa diz que “a Amazônia vem sendo tratada como um problema pelos países que a administram quando, na verdade, ela representa a solução para os problemas do mundo.”

A Arkhos Biotech investe contra o Brasil, afirmando que “a Amazônia é um fardo difícil [para o Brasil] carregar – como demonstram sucessivamente as taxas de desmatamento da Amazônia brasileira. O Brasil sequer investe em pesquisa na Amazônia. Dos 0,65% do PIB brasileiro investido em pesquisa, apenas 2% são canalizados para a região Norte. Os institutos de pesquisa que surgiram nos últimos anos na Amazônia brasileira, a maioria ongs ou entidades sem fins lucrativos, são mantidos com dinheiro dos países desenvolvidos. Hoje, mais de dois terços da produção de conhecimentos sobre a Amazônia são originados em outros países. Além disso, 78% das pesquisas sobre a Amazônia são produzidas por pesquisadores estrangeiros. A internacionalização da Amazônia já é um fato consumado.”

A campanha encetada pela Arkhos é um acinte ao Brasil e aos demais países que abrigam a Floresta Amazônica.

Sem o mínimo pudor eles alegam que “não se trata de “tirar” do Brasil, Venezuela, Peru, Colômbia, Guianas, Suriname e Equador os direitos garantidos pelas fronteiras estabelecidas. Entretanto, parece óbvio que estes países já tiveram sua chance, e falharam. Deixar a Amazônia nas mãos dos sul-americanos é condená-la à extinção rapidamente. Ao propiciar ao mundo a chance de intervir no destino da floresta, a humanidade pode estar dando o único passo possível para salvar a Amazônia.”

Ao abrir a página da empresa na internet, a primeira mensagem tem o título “A Amazônia deve ser internacionalizada”. A campanha que está em curso é realizada às claras, não tem subterfúgios, pelo contrário tem um vídeo de 1’ 25” estrelado pelo diretor sênior de marketing Allen Perrell, no qual ele afirma de maneira incisiva: “A Amazônia não pertence a nenhum país. Pertence ao mundo.”

Até agora, o governo brasileiro não tomou nenhuma atitude contra esse flagrante abuso da empresa, apesar de ser cobrado pelo senador Arthur Virgílio (PSDB-AM), pela deputada federal Perpétua Almeida (PC do B-AC) e pela deputada Janete Capiberibe (PSB-AP).

Aliás, ao ser procurado pela Agência Amazônia de Notícias, que denunciou a aberração, o Ministério do Meio Ambiente, através da secretária da Coordenação da Amazônia, Muriel Saragoussi, insinuou que a agência de notícias teria errado ao denunciar a proposta nociva ao país da Arkhos. Sem muitos rodeios, Muriel propôs a agência de notícias deixar “o caso esfriar”, pois, segundo ela, esta seria a melhor forma de deixar a Polícia Federal flagrar a Arkhos.

De concreto, Muriel Saragoussi apenas informou que levaria a denúncia à PF, mas pediu que a Agência Amazônia não desse muita publicidade ao assunto.

A atitude de Muriel Saragoussi, que falou em nome do governo brasileiro, é no mínimo suspeita.

Afinal, uma empresa estrangeira, instalada há quase trinta anos no país, enceta uma campanha de internacionalização da Amazônia, nas barbas das autoridades brasileiras, e a única reação do governo é mandar a PF apurar.

Será que essa frouxidão é para não causar constrangimentos na visita que o presidente Lula vai fazer a Bush neste fim de semana?

Bata-me um abacate, com bastante limão e baunilha.