Documentário denuncia a exploração dos trabalhadores levados para a região pelos latifundiários, mas mantidos em condições de escravidão

Uma abordagem dos problemas sociais e ambientais que latifundiários e políticos impõem à Amazônia desde a década de 1970. Essa é a proposta do documentário “Nas Terras do Bem-Virá”, de Alexandre Rampazzo e Tatiana Polastri, que estreiou segunda-feira (26) no festival É Tudo Verdade, em São Paulo e em Rio de Janeiro. O lema do governo militar na época era: “Homens sem terras do Nordeste para terras sem homens na Amazônia”. Esse encaixe foi tão imperfeito que a temática do documentário perpassa a devastação da floresta, o conflito fundiário e o trabalho escravo. Relata a trajetória dos “severinos” nordestinos, que já não rumavam para o litoral pernambucano, mas para o trabalho forçado nas fazendas de gado e soja, impossibilitados de retornar as suas casas.

O período de gravação nas 29 cidades do Norte e Nordeste foi de quatro meses. O longa inicia-se na cidade de Barras, interior do Piauí, onde vilarejos inteiros vivem o mesmo drama: não há trabalho e a terra é controlada por latifundiários. Os homens saem de lá e chegam ao Pará com um desejo de conseguir uma maneira para sustentar a família, que ficou. O serviço é desmatar as florestas, tanto para ampliar ou abrir novas fazendas voltadas ao agronegócio.

“Entrevistamos os familiares, no Piauí e no Maranhão. Em Tocantins e no Pará, fizemos algumas entrevistas em acampamentos. Havia casos de trabalhadores que já tinham sido vítimas de trabalho escravo. Relacionamos o fato de não haver terra para todos e ser esse um dos motivos de eles caírem nesse tipo de ‘relação trabalhista’ também”, conta Tatiana Polastri, produtora do documentário, ao lado de Alexandre Rampazzo. O que mais chamou a atenção de Rampazzo foi a auto-estima dos trabalhadores que vivem abaixo da linha da miséria, mas tentam mudar sua situação por meio da auto-organização. “Quando pertenciam ao movimento dos trabalhadores, eles te olhavam nos olhos, de cabeça erguida, sabiam da situação, mas sabiam de seus direitos. Eu achava extraordinário”, destaca o produtor.

Ele aponta a existência de um tipo de escravidão funcional para os migrantes conhecidos como “peões do trecho”. O trabalhador fica por algum tempo na pensão, adquire dívida com a proprietária até que chega o empreiteiro, conhecido na região como ‘gato’, e recruta esse trabalhador. O ‘gato’ pagava sua ‘dívida’ com a dona da pensão, mas adquire outra, com o empreiteiro. “Há pessoas que estão há 15, 20 anos nesse ciclo, ficam sem dinheiro nenhum e não conseguem retornar às famílias”, diz Rampazzo.

A aumento da escravidão caminha junto com a fronteira agrícola, deixando rastros de violência e destruição ambiental. Essa devastação, que até pouco tempo se concentrava no Sul do Pará, hoje encontra-se na região da Terra do Meio, justamente onde foi assassinada a Missionária Dorothy Stang. “Sentimos um cheiro de pólvora no ar. O próprio presidente da Cãmara Municipal de Anapu, Jurandir Plinio de Souza (PP-PA), um dos envolvidos, expulsou-me da Câmara Municipal da cidade. Ele disse “vocês são de São Paulo, não conhecem a realidade daqui”, conta Rampazzo. O documentarista afirma que, entre todos os entrevistados, existem, pelo menos, dez pessoas que correm o risco real de serem assassinadas. O bispo da região de Altamira, Dom Erwin Klauter, por exemplo, celebra a missa com colete.

Documentarista no Brasil

O esforço de fazer um documentário audiovisual sobre todo o ciclo do trabalho escravo na região amazônica até a conseqüente devastação da floresta e os assassinatos de líderes populares foi apenas a primeira etapa do desafio dos jovens produtores. Para denunciar a exploração humana e ambiental, os dois produtores contaram com a colaboração de sindicatos locais e da Comissão Pastoral da Terra regional (CPT). “Dormíamos onde dava. Em Anapu (PA), dormimos no quintal do casa de um padre, numa rede”, relata Tatiana Polastri.

A segunda etapa do desafio é a obtenção de recursos para financiar a exibição do trabalho. Alexandre Ramapazzo afirma que meia dúzia de famílias controla a mídia nacional, e no cinema não é diferente, restando migalhas para a grande maioria de produtores. “Em nosso trabalho não recebemos um centavo da Lei de Incentivo. É uma grande dificuldade financiar algo que denuncie o agronegócio, ou mesmo que questione a privatização da Companhia Vale do Rio Doce”, desabafa o documentarista.

in Brasil De Facto