O conflito envolvendo indígenas da etnia Macuxi e policiais federais, em Sorocaima, no Município de Pacaraima, continua repercutindo. Ontem sete indígenas procuraram a Polícia Civil e o Ministério Público para denunciar que foram espancados por policiais federais e agentes da Polícia Rodoviária, na sexta-feira passada.

Segundo o tuxaua Astromarino Flores, após o conflito de sexta-feira, os federais teriam invadido a aldeia e prendido vários indígenas. “Eles soltaram bombas, algemaram e espancaram os presos com cassetetes e cintos. Também espirraram spray de pimenta nas mulheres e atiraram em direção às casas. Bateram nos índios como se fossem criminosos e bandidos”, disse.

Segundo o tuxaua, os índios foram levados para Pacaraima e depois conduzidos até Boa Vista. “Eles me liberaram, mas flagrantearam vários índios por seqüestro, lesão corporal e resistência à prisão”, contou.

Os indígenas foram liberados por volta de 12h de sábado por um pedido feito pelo advogado Moacir Bezerra “O que mais nos revoltou foi que disseram que nossa comunidade tinha gasolina e droga, e ainda estão ameaçando prender mais de nosso povo. Estamos nos sentindo constrangidos e ameaçados, pois vivemos na comunidade sem perturbar ninguém. Eles entram em nossa casa e fazem isso dentro da aldeia”, ressaltou o tuxaua.

MPF – O procurador Antônio Morimoto assinou parecer favorável ao pedido de relaxamento da prisão dos indígenas acusados e afirmou que o auto de prisão em flagrante não contém fatos concretos que denotem os crimes pelos quais os índios foram acusados.

PF – A Folha procurou a Polícia Federal para ouvir a versão da entidade sobre as denúncias. Segundo o delegado Alexandre Carvalho, não houve nenhuma ação arbitrária por parte da polícia, que entrou na comunidade durante uma perseguição de flagrante delito.

“Eles [indígenas] prenderam um delegado e um agente e obstruíram a BR-174, impedindo o tráfego de veículos. A Polícia Federal foi ao local com os dois agentes seqüestrados que reconheceram os envolvidos. Tivemos que usar bombas de efeito moral não letal, porque eles estavam resistindo à prisão. Utilizamos apenas a força necessária para cumprir as prisões em flagrante, essas representações são normais”, disse.

PRF – O inspetor Walker Barbosa, da Polícia Rodoviária Federal, ao ser procurado pela Folha explicou que a entidade apenas estava dando apoio às prisões que seriam efetuadas pela Polícia Federal. “Fomos em apoio ao fato e lá as atividades foram coordenadas pela Polícia Federal. Foi empregada apenas a força compatível com a violência apresentada. No momento da prisão foi feito exame de corpo delito em todos os detidos”, explicou.

Segundo o inspetor, no mês passado policiais rodoviários teriam sido abordados por indígenas com arcos e flechas, além de facas, que estavam intimidando os agentes por conta de vários carotes de combustível oriundos da Venezuela que estavam sendo apreendidos na entrada da comunidade. “Eles estão ligados ao contrabando de combustível e não podem se achar imunes à lei”, disse.

O CASO – O conflito foi gerado depois que o índio Henrique Moreno Lopes foi detido no posto da PF em Pacaraima, ao ser parado conduzindo um veículo com a carteira de habilitação de seu sogro, por quem se fez passar.

Dois tuxauas, Mariano e Messias Bento Flores (sogro do índio detido), foram até o posto policial tentar liberar Henrique e, ao ser comunicado que ele não seria solto, os tuxauas se revoltaram e mandaram que um grupo de índios interditasse a BR-174.

O delegado Alexandre e o escrivão Maurício, que foram de Boa Vista para Pacaraima prender o índio, pararam a viatura e foram cercados pelos índios, que confiscaram as armas, o veículo e os mantiveram como reféns, para forçar uma negociação e liberar o índio preso.

Como forma de evitar dano maior, a PF negociou a libertação de seus servidores em troca do índio preso. Após esse acordo, os indígenas devolveram as armas do delegado e do escrivão e a viatura. Depois a PF voltou e fez as prisões.

in Jornal Folha de Boa Vista