Diante da crise climática e suas implicações, o Brasil apresenta um perfil único.  O custo de diminuição das emissões de CO2 no país é o menor entre os grandes emissores, uma vez que mais de 70% de sua contribuição para o aquecimento global deve-se ao desmatamento, principalmente na Amazônia.

Já para os demais campeões em gases de efeito estufa, a redução viria a custos muito mais altos, uma vez que envolve interferência direta no desenvolvimento industrial e nos padrões de consumo.  Quem garante é o professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UNB), Eduardo Viola, em palestra no último dia 12 durante o Simpósio Brasileiro de Mudanças Ambientais Globais, no Rio de Janeiro.

Para o professor, trata-se de uma vantagem que não pode mais ser negligenciada.  “Dentro de alguns anos todos os países precisarão assumir metas de redução de emissões, cada um dentro das suas peculiaridades.  Se o Brasil assumisse metas de redução do desmatamento desde já, teria muito mais autoridade nesse cenário”, disse ao Amazonia.org.br. Muito atrás do handicap brasileiro, numa escala de menores custos de combate ao aquecimento global, viriam Japão e os países europeus, “que são paises com muita consciência ambiental”, lembrou Viola.

É cada vez maior o consenso científico em torno das mudanças climáticas.  Enquanto isso, as medidas políticas e econômicas para combater o problema se aproximam da ciência apenas na retórica.  Com exceção do Reino Unido, Alemanha, Suécia e Dinamarca, todas as nações do mundo aumentaram suas emissões após o protocolo de Kyoto.

Diante de um cenário nacional tão favorável, Viola provoca: “Há uma visão paranóica de que o mundo quer tomar a Amazônia.  Uma prioridade para redução do desmatamento teria inclusive respaldo na opinião publica”.

Novos paradigmas
Betha Becker, pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, apresentou palestra em consonância com seu colega da UNB.  “Para mim há um falso dilemma que atrapalha muito as ações na Amazônia, que é a polarização entre conservação e uso do patrimônio natural”, disse.

Para Becker é perfeitamente possível a aliança entre os dois pólos, diante da enorme valorização da Amazônia como capital natural, nos últimos anos.  Ela ainda apontou diversas alternativas para um novo modelo de desenvolvimento, como a indústria da biodiversidade voltada para produção de fármacos, em face da crise da saúde pública no país.

O avanço da soja e da pecuária na Amazônia, um dos principais vetores do desmatamento, foi citado pela pesquisadora como uma estratégia de desenvolvimento insuficiente.  “Há um conflito entre dois mercados: o mercado que até hoje valorizou imensamente a soja e a carne, e o mercado que agora se tenta organizar com bens naturais, água, biodiversidade e mercado de carbono”.

Becker ainda criticou a política ambiental que prevaleceu no Brasil desde os anos 80, voltada apenas para a preservação do bioma.  Segundo ela, esse modelo não foi capaz de conter o avanço do agronegócio, além de não ter gerado riqueza, trabalho e renda para a população amazônida.  Já o aproveitamento sócio-econômico do patrimônio ambiental, lhe parece muito mais vantajoso: “Cada vez mais todo mundo quer falar de futuro.  A previsão para os próximos 20 anos no Brasil é uma enorme janela de possibilidades, baseado no imenso e diversificado território”.