mulheres178792.jpg Objetivo é questionar investimentos em modelo de produção extensiva – o agronegócio – que utiliza métodos altamente impactantes no meio ambiente e na saúde dos consumidores, e defender métodos agroecológicos

BRASÍLIA – Entre 2003 e 2006, a atividade agrícola calcada em grandes propriedades voltada à exportação, o agronegócio, produziu cerca de 30% do alimento consumido no país e teve cerca de R$ 80 bilhões em dívidas renegociadas. Já a chamada agricultura camponesa, calcada na pequena propriedade coletiva, foi responsável pela produção de 70% da comida no país, tendo recebido em incentivos públicos cerca de R$ 20 bilhões no mesmo período.

Para questionar esta diferença e contrapor os dois modelos, o Movimento de Mulheres Camponesas do Brasil (MMC) organizou a campanha “Produzir Alimentos Saudáveis, Cuidar da Vida e da Natureza”, lançada hoje em Brasília por ocasião do dia 8 de março. A campanha pretende mobilizar as mulheres do campo e da cidade na reflexão e debate acerca de qual modelo agrícola, alimentar e ambiental no Brasil.

Segundo Marina dos Santos, da coordenação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), entidade parceira da campanha, o modelo ligado ao agronegócio, mais preocupado com a produção do monocultivo para exportação, tem trazido conseqüências maléficas como o êxodo rural, a fome e a miséria e a contaminação do meio ambiente a partir do uso de agrotóxicos. Por outro lado, segundo Justine Cima, da coordenação do MMC, o plantio extensivo de pinus e eucalipto para a produção de celulose ocupa cada vez mais terra agriculturável, expulsando os camponeses a um alto preço, pois suga os nutrientes e água do solo (daí seu apelido de “deserto verde”), e ainda por cima sem qualquer ganho para a população brasileira (uma vez que 97% da celulose produzida é destinada à exportação).

O agronegócio colocou o Brasil sob o domínio do cartel internacional de 11 empresas que comandam a produção e comercialização de alimentos no mundo, reduzindo a quantidade de grãos cultivados de 35, na década de 1960, para apenas cinco hoje. Segundo dados apresentados no lançamento da campanha, enquanto 32% da população brasileira está na linha da pobreza e da miséria, 57,1% das pessoas residentes no campo se encontram nesta situação. Quando observado sob o recorte de gênero, 70% deste universo de pessoas com menor poder aquisitivo é formado por mulheres e crianças.

Alternativa
Outro projeto defendido pelo MMC prega a valorização de uma agricultura ambientalmente sustentável voltada ao abastecimento das necessidades alimentares da população. “Queremos resignificar o sentido da agricultura camponesa como agricultura ecológica, que possa garantir alimentos saudáveis na mesa de todos os brasileiros tendo como premissa da soberania alimentar”, explica Justina Cima. “Nossa proposição é que produção seja livre de produtos químicos, natural, agroecológica e que preserve e recupere a biodiversidade no país”, acrescenta Marina dos Santos.

A preocupação com o meio ambiente é um dos temas que será abordado pela campanha. “O aquecimento global, a seca e as enchentes são fenômenos preocupantes, estamos assistindo a destruição da natureza”, alerta a representante do MMC.

Em relação a questões específicas para as mulheres, um dos focos será a luta para garantir os direitos relativos à previdência social, como o limite mínimo de 55 anos para obtenção de aposentadoria, e benefícios como o salário-maternidade.

Para atingir estes objetivos, a campanha pretende levar esta reflexão aos quatro cantos do país por meio de debates e através de atividades de capacitação de agricultoras. Outra ação será a reivindicação junto ao governo da promoção de políticas e programas voltados ao fortalecimento da produção em assentamentos e experiências coletivas de mulheres camponesas.

Como primeira ação, representantes do movimento realizaram audiência hoje com a ministra da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, Nilcéia Freire. A titular da SEPM se comprometeu a encaminhar as pautas apresentadas pelo movimento e a lutar dentro do governo para a manutenção dos direitos das mulheres no debate sobre as mudanças na Previdência (leia matéria sobre a primeira reunião do Fórum Nacional da Previdência Social).