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Eles habitam o Jordão, município distante cerca de 700 quilômetros da capital acreana, estão espalhados em 14 aldeias e juntos somam aproximadamente 1,4 mil pessoas. São os Kaxinawá, um povo que luta para manter viva sua cultura, e vem trilhando novos passos para garantir a subsistência através de seus valores artesanais.

No próximo dia 10, eles lançam dentro da floresta do Jordão principal – São Joaquim – a coleção da grife Kaxinawá, que soma em roupas, bolsas, colares e outros adereços. O momento será especial e iniciará com um rito sagrado e diversas demonstrações da dança, dos cantos que fazem parte de sua tradição.

Mas os índios Kaxinawá do Jordão não estão sozinhos, outros “parentes” da mesma etnia também habitam mais quatro municípios do Estado, todos no Vale do Juruá, e a pretensão é que o trabalho que está sendo plantado no Jordão seja regado e se multiplique nas aldeias localizadas em Santa Rosa do Purus, Feijó, Tarauacá e Marechal Taumaturgo. Uma forma de garantir que cada pessoa que carrega a essência Kaxinawa participe dessa valorização da identidade de seu povo.

Nesse novo caminho que trilham, eles se organizam através da Associação dos Seringueiros Kaxinawá do Rio Jordão (Askarj), que coordena a vitrine de sua cultura em Rio Branco, o Kupixawa, que significa casa grande de encontros, uma espécie de loja que expõe a produção dos artesanatos feitos por eles e, agora, roupas e bolsas com pinturas que eles usam para enfeitar o corpo como expressões de sentimentos, sejam de alegria, desejos ou tristeza.

A apresentação oficial desses produtos marca o início de um compromisso com entre as pessoas que estão à frente desse trabalho com o próprio povo indígena, e inicia-lo na aldeia é uma boa forma de iniciá-lo, na linguagem dos brancos, com o pé direito. “Vamos apresentar esse trabalho primeiro ao nosso povo, junto aos pajés, crianças, idosos, mulheres, guerreiros, pedi aos antepassados licença para mostrar nossa cultura e pedi a força deles”, diz Banê Kaxinawá, presidente da Askarj.

Há três gerações construindo história

Depois de Suero Banê Kaxinawá, que hoje os índios acreditam estar presente em espírito entre seu povo, o seu filho Siã Kaxinawá, que representa sua gente na organização dos brancos, primeiro como vereador e agora como vice-prefeito do Jordão, agora o neto, Banê Kaxinawá também assume a tarefa de ser uma liderança indígena com a responsabilidade de fazer os sonhos de seu povo tornar-se realidade.

“Eu sai da aldeia, morei em Rio Branco e depois viajei por vários cantos do Brasil e aprendi muito com o mundo dos brancos para eu ajudar também meu povo com nossos projetos. Eu me sinto feliz em estar defendendo a valorização de nossa identidade e cultura”, diz,

Uma tradição para vestir

Cada camisa, saia, top, bolsa ou outro adereço da grife Kaxinawá é um pedaço da história do próprio povo contado a partir das figuras que contam sua crença, seus mitos. Conhecidos pela produção dos kenês – tecidos feitos de algodão em formas de figuras pintadas no corpo como maneira de expressão – eles pretendem torná-los permanente nas peças que se aperfeiçoam a cada dia.

Bane diz que a parceria no trabalho com Carlos Alberto, o CA, tem sido de grande importância na administração do Kupixawa, e de Rosangela Oliveira, na coordenação da grife. “São pessoas que compartilham de nossos ideais e nos ajudam a fazer esse projeto existir e funcionar”, fala.

Um dia com os antepassados

O Kupixawa está previsto para ser reformado e na reinauguração, a grife também será lançada em Rio Branco. Mas é o desfile na aldeia que promete ser um rito de muita beleza, excentricidade do povo Kaxinawá, e de muito respeito com os antepassados, os espíritos que os guiam. Dez jovens mulheres, dez jovens homens, dez idosos e dez crianças vestirão as peças para mostrar aos demais índios o trabalho fruto deles próprios.

O momento de grande importância promete reunir os “parentes” de todas as demais aldeias, tornando este momento em uma grande festa, que celebra não só um novo projeto, mas a vida, a tradição, a cultura, a história.

in Página 20