Opinião
Adelto Gonçalves
20/02/2007 08:02:8

Como se sabe, não há como estabelecer uma percentagem na quantidade de sangue para se definir se alguém nascido mestiço pode se considerar negro, indígena ou branco. Portanto, a escolha fica ao livre-arbítrio de quem tem no corpo sangue de vários ascendentes, independente da cor da pele. Esse é o critério que se vem levando em conta nas universidades públicas brasileiras para se estabelecer quem é ou não negro e pretende usufruir o sistema de cota que dá direito ao ingresso. É claro que isso, às vezes, causa confusão ou mesmo indignação a quem, trazendo a pele mais escura, é obrigado, por força das circunstâncias, a custear os seus próprios estudos em universidades privadas. Sem contar os que se consideram brancos e são pobres e igualmente não têm acesso à universidade.
Seja como for, a verdade é que mestiços, historicamente, não são nem uma coisa nem outra. São mestiços. E pronto. Ainda há pouco tempo, um escritor moçambicano escrevia-me para dizer que, para ele e muitos dos seus pares, o Brasil era um “caso perdido”. Ou seja, a africanidade aqui já se havia perdido por causa da intensa miscigenação. Questão de ponto de vista. Nem o Brasil é, hoje, uma nação negra nem é um país de brancos. É um país miscigenado. Nascido da convivência (nem sempre pacífica) entre brancos europeus, negros e indígenas. Sem contar os asiáticos e os oriundos do Médio Oriente e os seus descendentes, que já não são poucos. E outros tantos europeus de regiões diversas. Já era, portanto, um país globalizado, antes mesmo desta palavra ter virado moda.
A quê vêm estas reflexões? É que, recentemente, por gentileza do professor J. Cândido Martins, da Universidade de Braga, recebi o livro Colóquio de Outono: Estudos de tradução/Estudos pós-coloniais, organizado por Ana Gabriela Macedo e Maria Eduarda Keating, do Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho. Entre 18 outros textos de primeira grandeza, o volume traz o ensaio “Traddutora,Traditora? Tradução, mestiçagem e multiculturalismo no feminino” em que o professor Fernando Ferreira-Alves, da Universidade do Minho, destaca o papel de mulheres indígenas na história da colonização do Novo Mundo.
Por norma, os tradutores/intérpretes que seguiam nas naus eram homens. Afinal, mulheres sempre foram raras nas naus, como mostra Fina D´Armada em Mulheres Navegantes: no tempo de Vasco da Gama (Lisboa, Ésquilo, 2006). Mas houve muitas que tiveram participação decisiva naquilo que se denominaria de conquistas. Ferreira-Alves relaciona várias, desde Dona Mécia, filha do governador da fortaleza portuguesa de Santa Cruz de Cabo Gué, actual Marrocos, que, em 1541, desempenhou papel importante como intermediária entre os mundos português e muçulmano, até a mais famosa de todas, Doña Mariana ou La Malinche, intérprete de Cortez durante a conquista do México.
Na colonização do Brasil, diz Ferreira-Alves, é, praticamente, impossível detectar uma ou mais figuras femininas que tenham tido força idêntica e carisma como La Malinche, embora haja relatos de vários exemplos de mulheres que mediaram as relações entre índios e portugueses e entre as colónias costeiras portuguesas e as nações indígenas que viviam no sertão. Lembra, porém, que há pelo menos um caso de uma indígena em toda a literatura histórica do período colonial que preenche claramente o modelo do agente ou intermediário transacional.
Trata-se da Paraguaçu, mulher índia de Diogo Álvares Correia, o famoso Caramuru, fidalgo da Casa Real de D.João III, homem influente e poderoso que naufragou nas costas na Bahia de Todos os Santos, por volta de 1510 e, que, depois, seria imortalizado no famoso poema de José de Santa Rita Durão, de 1781. Paraguaçu, filha do chefe Taparica, da tribo dos tupinambás, atravessou o Atlântico com Diogo Álvares Correia e, inclusive, foi batizada Catarina do Brasil em Saint-Malo, na Bretanha, em 1528.
Ferreira-Alves cita também João Ramalho, degredado português que, no século XVI, no Planalto paulista, casou com Bartira, filha do cacique Tibiriçá, da tribo tupiniquim. António Rodrigues, outro degredado, casou com uma filha do chefe Piquerobi. Especula-se que Bartira, a exemplo da Paraguaçu, tenha tido participação decisiva na atuação de João Ramalho como intérprete em suas relações com os indígenas. Depois, João Ramalho haveria de ajudar os demais portugueses que chegariam com Martim Afonso de Sousa a São Vicente e subiriam a íngreme Serra do Mar.
O ensaísta não esqueceu de Maria do Espírito Santo Arco Verde, filha do chefe Arco Verde, que se relacionou com Jerónimo de Albuquerque, cunhado do donatário da capitania de Pernambuco, Duarte Coelho. M´Uiráuby, o seu nome indígena de princesa tabajara, teria participação decisiva numa determinada ocasião, salvando a pele do futuro marido. Albuquerque, em Janeiro de 1548, caíra derrotado nas mãos de indígenas que o condenaram ao sacrifício. Teria sido comido pelos canibais, não tivesse a princesa indígena apaixonado-se por ele, conseguindo do pai o perdão para o inimigo.
Todas essas mulheres – indígenas ou mamelucas – tiveram actuação mais importante como intermediárias do que as mulheres europeias, acabando mesmo por ocupar o seu lugar. Até porque, dificilmente, mesmo os homens de poder – os altos funcionários régios -, até os finais do século XVIII, levavam na sua companhia as esposas, que, a rigor, ficavam na metrópole para cuidar dos filhos e dos demais interesses da família. Sem contar que subir a Serra do Mar ou seguir para os cafundós de Goiás, Mato Grosso e outras capitanias de canoa por rios cheios de corredeiras seria tarefa quase impossível para uma mulher branca criada na corte.
Outra daquelas mulheres que funcionaram como intérprete entre os dois mundos – e que não consta do ensaio de Ferreira-Alves – é Damiana da Cunha Meneses, tida como heroína e catequista para os brancos, líder dos caiapós no território que se estende hoje do Triângulo Mineiro ao Mato Grosso, no século XVIII. Sobre Damiana acaba de sair o excelente romance Guerra no Coração do Cerrado, de Maria José Silveira, goiana que mora em São Paulo desde 1985, formada em Comunicação pela Universidade de Brasília e em Antropologia pela Universidade Nacional Mayor de San Marcos, em Lima, Peru, e mestre em Ciências Políticas pela Universidade de São Paulo.
Depois de ter escrito, entre outros livros, Eleanor Marx, filha de Karl (2002) e O fantasma de Luis Buñuel (2005), obras fartamente elogiadas pela crítica, Maria José Silveira faz não a biografia de Damiana da Cunha Meneses, mas um romance, já que os dados etnográficos e históricos disponíveis são exíguos e não permitem chegar à que seria a verdadeira história dessa índia que foi baptizada por Luís da Cunha Meneses, governador e capitão-general de Goiás de 1778 a 1783. Esse Cunha Meneses é o mesmo que inspiraria o poeta Tomás António Gonzaga (1744-1810), nascido no Porto, a escrever as Cartas chilenas, chamando-o jocosamente de Fanfarrão Minésio num relato em versos de possíveis patifarias que teriam ocorrido no seu governo à frente da capitania de Minas Gerais, mais precisamente em Vila Rica.
Cunha Meneses foi um dos governadores que viajaram solteiros para a América portuguesa e que, portanto, teria se aproveitado da situação de mando para se envolver com muitas mulheres da terra. Só haveria de casar ao retornar ao Reino, em 1788, quarentão e ainda solteirão, com a viúva de seu irmão, Manuel Inácio, o mais velho dos irmãos Cunha Meneses, que assumira o governo da capitania da Bahia ao mesmo tempo em que Luís assumira o de Goiás. A sua mulher era herdeira única dos condes de Lumiares e dos de Vimeiro e, depois, viraria camareira-mor de dona Maria I. A levar-se em conta o que diz em versos Critilo, alter ego de Gonzaga nas Cartas chilenas, Luís da Cunha Meneses seria famoso por promover festas de arromba no Palácio dos Governadores, em Vila Rica.
De sua passagem por Vila Boa, a capital da capitania de Goiás, parece que não restaram muitos relatos desabonadores. É claro que Cunha Meneses deve ter tido um grande número de amásias, mas sequer se especula que Damiana fosse filha sua com alguma indígena. Oficialmente, ele aparece como padrinho da menina, que viveria na sua companhia no palácio até a sua transferência para Minas Gerais.
Neta do cacique Angraíocha, Damiana ficaria sob a responsabilidade de Cunha Meneses, que tratou de cuidar da sua educação a fim de dar uma demonstração dos seus bons propósitos em relação ao povo caiapó. Na verdade, Damiana funcionou como moeda de troca: enquanto a tivesse ao seu lado, Cunha Meneses imaginava que teria a garantia de paz com os caiapós.
Observa Maria José Silveira no romance que Damiana viveria no palácio “bem tratada por alguns, ignorada por muitos, desprezada pela maioria e temida por um ou outro”, aprendendo “a língua e as maneiras do homem branco”. O que teria sido a vida de Damiana depois da ida de Cunha Meneses para Minas Gerais é o que a ficção de Maria José procura reconstruir, relatando as expedições de que ela teria participado e a sua actuação como intérprete de mundos totalmente opostos no meio a numerosas revoltas do seu povo contra o avanço dos invasores – não só brancos, mas, principalmente, negros, pardos, mamelucos, cafuzos, cabras e toda a variedade de nomes que a população brasileira deu aos miscigenados. Damiana teria morrido mais ou menos aos 56 anos e, segundo a historiografia oficial, teria sido “sepultada na igreja local como heroína brasileira”.
Vê-se por aqui que não deve ter sido fácil a vida dessas mu-lheres – muitas vezes, consideradas traidoras de seu povo. E, outras vezes, exaltadas pela historiografia oficial e condenadas pelos revisionistas. Situação semelhante viveram as miscigenadas, sem saber ao certo a que mundo pertenciam – ao mundo dos da terra ou ao do branco invasor ou ao do negro invasor forçado.

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GUERRA NO CORAÇÃO DO CERRADO, de Maria José Silveira. Rio de Janeiro: Editora Record, 2006, 262 págs. E-maiL: record@record.com.br

COLÓQUIO DE OUTONO: Estudos de tradução – Estudos pós-coloniais, de Ana Gabriela Macedo e Maria Eduarda Keating (organizadoras). Braga: Centro de Estudos Humanísticos/Universidade do Minho, 2005, 262 págs.