No município de Alto da Boa Vista, 17 crianças xavantes morrem por desnutrição. Em outubro do ano passado, um relatório da funai já denunciava o problema e alertava sobre o risco de vida para os índios.

Na semana passada duas crianças indígenas morreram em Campinápolis (distante 573 quilômetros de Cuiabá). Só na aldeia Marãiwatsede, em Alto Boa da Vista, a 1.143 quilômetros de Cuiabá, 17 crianças morreram de desnutrição do ano passado até janeiro deste ano. Segundo um dos coordenadores da Fundação Nacional do Índio (Funai) em Área Xavante, Édson Silva Beiriz.

Em um documento de outubro de 2006 ele alertava para a situação crítica das crianças de até cinco anos deidade. Entre os problemas apontados, as cestas básicas distribuídas pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa) não atendiam as necessidades da população local, e a falta de saneamento básico e água potável.

O documento foi encaminhado ao presidente da Funai, Ministério da Saúde e Ministério Público. A Funasa contesta as informações. De acordo com a Funasa, este ano nenhuma criança morreu na aldeia Marãiwatsede e em 2006 foram 11 mortes, sendo quatro por desnutrição.

“Nós estamos desencadeando há vários meses ações que diz respeito a fazer a identificação das crianças que estão com alto grau de desnutrição. Essa criança passa a ter uma atenção diferenciada, passa a receber alimentação suplementar composta de um sopão duas vezes ao dia e recebe a mega dose de vitamina A”, disse Stephano Benevides, chefe distrital sanitário de saúde da Funasa.

Para a Operação Amazônia Nativa (Opan), as medidas não são suficientes. Segundo o coordenador da organização não governamental (Ong), a ocupação de fazendeiros na área e a concentração dos índios em pouco mais de três mil hectares provocaram impacto na população indígena.

Não adianta trabalhos paliativos de pequenos projetos. Cesta básica é necessário, mas é insuficiente. É preciso um plano de reocupação da área total desse povo”, disse Ivar Bussato.

OAB

Em nota divulgada na tarde desta sexta-feira (9), a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em Mato Grosso afirmou ainda que há denúncias de que um índio xavante morre por semana na região de Campinápolis, no Vale do Araguaia, e que a notícia não chega a ser uma surpresa para a OAB em Mato Grosso. Há um ano o fato já vinha sendo denunciado pela Comissão de Direitos Sociais. Luciana Serafim, secretária-geral da OAB e presidente da Comissão de Direitos Sociais disse que há um ano a entidade cobra uma firme investigação do Ministério Público Federal. Ela adiantou que pretende reforçar o pedido de investigação do caso.

O assunto chegou a ser debatido na Conferência Nacional dos Advogados, instância máxima de debates de temas envolvendo a classe, realizada em Florianópolis (SC). Na ocasião, foi aprovada a proposta para que fosse formulada uma auditoria na Fundação Nacional de Saúde (Funasa) no tocante ao atendimento aos grupos indígenas habitantes em Mato Grosso. Principalmente da etnia Xavante, por causa dos graves problemas de desnutrição. O assunto foi apresentado em outubro de 2005 no Painel das Minorias.

Em novembro, a situação havia chegado ao extremo: nas aldeias Água Limpa e Pedra Grande. Entre os índios xavantes, quatro crianças morreram. Elas tinham idade entre oito e quatro anos. Líderes indígenas denunciaram que algumas crianças, acometidas de doenças, neuromusculares ou degenerativas, aparentemente, encontram-se “sem nenhuma assistência médica” nas aldeias onde ocorreram as mortes e também em Sete Rios e São Benedito. “Infelizmente, as denúncias caíram no vazio” – criticou.

Ao apresentar a denúncia sobre o caos na saúde dos índios da região do Vale do Araguaia, líderes confirmaram que as crianças não estavam recebendo vacinas contra doenças de alta proliferação, tais como varíola, febre amarela, poliomielite, BCG, tríplice, sarampo e a própria catapora. Crianças portadoras de catapora, por exemplo, recebiam atendimento apenas por parte do município, quando o trabalho é de responsabilidade da Fundação Nacional de Saúde.

A desnutrição, segundo a Funai, é responsável por 80% das mortes dos índios xavantes, que habitam a região. Edson Silva Beiriz, um dos coordenadores da Funasa, disse que a situação é agravada pela falta de assistência da Fundação Nacional de Saúde.

in Notícia Digital