Em fevereiro, índios guarani de toda a América irão se encontrar nos arredores da cidade de São Gabriel, no Rio Grande do Sul. Não, ainda não terão encontrado YvY marã ei, a “terra sem males”, o lugar que – no mito guarani – significa a paz e a fartura para todos e cuja busca move a vida deste povo. Ao contrário, a Assembléia Internacional dos Povos Guarani será mais um passo nesta busca. Um passo intensamente motivado pelas violações aos direitos dos povos indígenas, comuns às diversas tribos espalhadas de Norte a Sul do Brasil e pelos países do Cone Sul latino-americano.

É neste evento que os guarani do Mato Grosso do Sul apostam para dar peso político à sua luta por terra no estado que concentra uma das maiores populações indígenas no país, como dão a entender Amilton Lopes e Eugênio Gonçalves, lideranças guarani-cayowaá.

Os guarani sul-matogrossenses tornaram-se um ícone da questão indígena no país. Acumulam-se, mesmo na grande mídia, relatos de violência envolvendo fazendeiros da região e denúncias sobre a degradante condição de vida e saúde, em especial das crianças, infligida às várias tribos.

Os relatos de Amilton e Eugênio são muito representativos desta situação. Ambos estiveram em São Paulo para discutir com o Tribunal Regional Federal o andamento de processos que vêm impedindo a demarcação das áreas indígenas, por vezes já reconhecidas. Participaram, também, do lançamento do Relatório Direitos Humanos no Brasil 2006, da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos.

A morosidade da Justiça em dar conta do dilúvio de ações movidas pelos fazendeiros da região contra o Estado e os índios cria situação de extremo conflito e em flagrante desrespeito à lei e aos direitos dos povos indígenas. A tribo de Amilton, por exemplo, vive confinada hoje em uma área de 120 hectares, no município de Antônio João, dentro do que deveria ser desde vários anos uma reserva de 9.317 hectares. Segundo Amilton, o território guarani-cayowaá já foi reconhecido e demarcado, mas os latifundiários não desocupam a terra, entopem a Justiça de processos e montam milícias para manter os índios restritos à diminuta área “concedida”.

“Se a terra é de conflitos, não tem como garantir estrutura de atendimento e as crianças são as que mais sofrem. A área é restrita, também, não tem como plantar, a pesca é insuficiente, daí vem a fome, e as crianças de novo são as que mais sofrem”, relata Amilton. A mortalidade infantil entre o povo guarani-cayowaá chega a 103,45/mil nascidos vivos, a maioria por desnutrição ou desassistência, pura e simples.

Confirmando a centralidade da questão da terra para os guarani do MS, Eugênio afirma: “Todos os problemas é devido à falta de terra. Demora (pra demarcar), a comunidade toma como única alternativa voltar e ocupar suas áreas e aí se repete a história dos últimos 500 anos: somos recebidos com violência, à bala.”

O jovem caiowaá perdeu o irmão em uma das dezenas de histórias de conflitos violentos entre indígenas e os latifundiários. Dorival Benitez foi assassinado em 5 de junho de 2005. Até hoje, ressalta Eugênio, ninguém foi preso ou indiciado pelo assassinato. Este “dois pesos, duas medidas” no tratamento dado pela Justiça aos conflitos por terra no estado (ele lembra que há pelo menos uma dezena de guarani presos, sem qualquer acusação formal comprovada) acirra ainda mais os ânimos.

Há ainda a questão dos despejos, promovidos pelas milícias armadas montadas pelos fazendeiros. “Isso é humilhação”, pontua Eugênio, que vive em uma tribo na divisa com o Paraguai, em um território já reconhecido como tradicional cayowaá, mas ainda a espera da demarcação.

Os despejos forçam os guarani a perambular pelas estradas do MS. Com isso, aumenta o número de atropelamentos – alguns, como registra Paulo Maldos, do Conselho Indigenista Missionário e autor do capítulo sobre direitos indígenas no relatório da Rede Social, são propositais, fruto do mais puro preconceito.

Diante do horror desta realidade, Eugênio e Amilton dizem que depositam esperanças no processo da Assembléia dos Povos Guarani, porque será possível unificar a luta entre estados e países.

Luta esta que ressalta, de novo, Eugênio, não é por outra coisa, que não a terra. “A gente não pede estes programas sociais, a gente pede a nossa terra-mãe, porque é nisso que a gente acredita.”

in Repórter Social