por Alceu Luís Castilho

No Pará, o matador Júlio Santana executou um menino de 13 anos, a mando de um fazendeiro. É que os pais, trabalhadores escravos na fazenda, tinham fugido, e a morte dos filhos era um recado para que voltassem ao trabalho. Santana procurava não pensar nos motivos pelos quais estava matando alguém. Era pago para matar. E matou: nada menos que 492 pessoas, em pelo menos 13 Estados Brasileiros. A maioria no Norte e Nordeste, e em boa parte por conflitos da terra.

Essa história está contada em “O Nome da Morte”, do jornalista Klester Cavalcanti (Editora Planeta). Santana deixou este ano o ofício de matador, e mora agora em algum sítio em Estado não identificado pelo autor. Só revelou o nome após anos de insistência do repórter. O relato sobre sua vida de matador foi facilitado pelo hábito que o maranhense tinha de anotar em um caderno (com a capa do Pato Donald) o nome de cada uma das vítimas e de cada um dos mandantes.

Santana não perguntava o motivo da morte, mas em todos os casos o mandante ou os intermedíarios faziam questão de falar. Foram casos passionais, disputa por herança, execução de devedor por um agiota, mas principalmente assassinatos motivados pela questão fundiária, na maioria encomendados por fazendeiros.

A distribuição de 32 das mortes mostra o raio mais freqüente de atuação do matador: foram 6 no Pará, 6 no Maranhão, 4 no Tocantins, 3 no Piauí, 2 em vários Estados (Rondônia, Mato Grosso, Goiás, São Paulo), Acre, Ceará, Bahia, Mato Grosso do Sul, Paraná. Faz sentido: é ali, na Amazônia mais populosa, que se concentra boa parte dos assassinatos rurais no País.

O caderno onde Santana anotava as vítimas e os mandantes está agora no fundo de um rio. Mas a pergunta que se faz é: não é o caso de a polícia, deputados e jornalistas tomarem o livro de Cavalcanti (editor da revista VIP) como um documento histórico e irem atrás dessa testemunha crucial na história recente da nossa infâmia?

É evidente que o jornalista não vai denunciar a fonte. Nem deve. Mas a polícia tem seus recursos. E é evidente também que não se trata de localizar o matador para uma punição individual. Os gatilhos pressionados por Santana foram bancados por bandidos com poder econômico, e capazes de repetir os crimes com outros pistoleiros.

E agora?

Um dos assassinatos cometidos por Santana, que começou no ofício aos 17 anos em Porto Franco (MA), foi o do sindicalista Nativo da Natividade, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Carmo do Rio Verde (GO). Por ironia, uma cidade bastante próxima de Brasília. O mandante, segundo o pistoleiro, foi nada menos que o prefeito da cidade, nos anos 80.

Cavalcanti chega a nomear o prefeito, mas informa que ele foi absolvido, anos depois. A pergunta é: não será obrigação do Estado, a partir do momento em que aparece uma testemunha com nome e sobrenome, ainda que sem paradeiro conhecido, mas relatada por um jornalista de renome, não será obrigação do Estado e da Justiça tentarem localizar o assassino confesso e, principalmente, reabrir o processo contra o suposto mandante?

Esse caso de Carmo do Rio Verde é apenas um daqueles que envolvem pessoas com uma certa ascensão social: um sindicalista que se projetava politicamente numa cidade goiana, e o prefeito do município. Em vários outros casos, para utilizar uma expressão recorrente entre os mandantes dos crimes, são brasileiros “infelizes”, cujos parentes não tiveram poder de mobilização para emplacar investigações sérias.

Na única vez em que Santana foi preso, um delegado (igualmente nomeado no livro por Cavalcanti) de Tocantinópolis (TO) o liberou em troca de uma motocicleta. Isso foi em 1987. O crime de prevaricação do delegado está prescrito? Não sei. Mas no mínimo a imprensa local e tocantinense poderiam tratar o caso do modo que ele merece, emblemático de um modo de se fazer polícia neste País.

Chama a atenção a divulgação pífia do livro na chamada grande imprensa – isto apesar de Cavalcanti já ter ganhado prêmios de direitos humanos, ter sido correspondente da revista Veja na Amazônia, etc. E olha que nem é obra para se dar apenas no rodapé dos cadernos culturais, mas para abrir com letras grandes páginas de Brasil, Geral e Cidades, de polícia e de política, por oferecer dados novos – e em escala – sobre crimes políticos importantes.

Cavalcanti dá ênfase no livro ao início da vida de matador de Santana, no Araguaia. Ele participa decisivamente, em 1972, da prisão do deputado eleito José Genoíno (PT-SP), na época guerrilheiro do PCdoB, imobilizando-o com um tiro no ombro, após localizá-lo no meio da mata. E é o autor do disparo que atinge a paulista Maria Lúcia Petit da Silva, a única guerrilheira do Araguaia que teve o corpo exumado e identificado.

Sim, em um país sem memória, e que ainda esconde os arquivos do Araguaia, da Guerra do Paraguai, da diplomacia e de ditadores diversos (Getúlio Vargas, Castello Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel, Figueiredo, os nossos projetos de Pinochet), esse caso do Araguaia sem dúvida exclama sua importância.

Mas não nos esqueçamos das vítimas comuns, as centenas de trabalhadores executados por Santana – um mercenário oportunista – e mortos por ordens de patifes que ainda estão por aí, empunhando suas fazendas ou cargos, com o mesmo poder econômico e de vida e morte sobre outras pessoas.

in Repórter Social