gio.jpgGiovanna  se entrega a um dos trabalhos mais brasileiros de sua carreira: a nordestina Delzuite, uma das estrelas principais da minissérie “Amazônia – De Galvez a Chico Mendes”, escrita por Glória Perez e dirigida por Marcos Schechtman.

Após passar 40 dias entre Manaus e Acre, a atriz coleciona experiências da floresta. “Saía à noite para procurar jacarés, fui pescar piranha e passava até sete horas diárias nadando com os botos. Eles me deram algumas mordidinhas, mas faria tudo outra vez. A sensação é maravilhosa, indescritível”, conta Giovanna. Ela precisava mesmo mostrar intimidade com os botos. Para justificar a gravidez, Delzuite apela para os supostos poderes mágicos do animal.

“Ela diz que o filho é do boto. Prático, né?”, brinca. Nos anos 40, a tal historinha de pescador livrava muita gente de uma saia-justa perante a família. Moradores locais diziam que o animal era encantado: ao anoitecer, ele se transformaria em um rapaz bonito e elegante, hábil em seduzir moças ingênuas.

Lendas a parte, o ‘boto’ de Delzuite tem nome e sobrenome. Trata-se de Tavinho, personagem de Paulo Nigro. “Ela é filha de seringueiro, tem um casamento arranjado pelo pai. Durante o tempo em que estive na floresta conheci muita gente que poderia ser a Delzuite. Fiquei observando os gestos das pessoas, jeito de andar, sotaque … Foi uma forma de conhecer a região a fundo sem o simples olhar de turista.”

Giovanna não precisou de preparo físico para enfrentar a maratona transamazônica. Intérprete da guerreira Anita Garibaldi de “A Casa das Sete Mulheres” (2003), e da quase-muçulmana Jade aquela que dançava enrolada em cobras em “O Clone” (2001), está habituada a cenas radicais, com direito a bichos exóticos como coadjuvantes. “Foram cavalos, serpentes e botos. Adoro bicho, não vejo como sacrifício. Difícil mesmo foi ficar longe do Pietro. É o primeiro trabalho longo desde o nascimento ele.”

Com pouco mais de um ano, Pietro é fruto do casamento de três anos com Murilo Benício, desfeito em 2005. Os dois se apaixonaram justamente na época das danças performáticas de O Clone. Naquele ano, Giovanna tornou-se uma das principais apostas da Globo. A recompensa veio pouco tempo depois: em 2004, livre das boazinhas sonhadoras que sempre interpretava, pôde mostrar seu talento para menina má em Da Cor do Pecado.

De volta ao ritmo de gravações, a atriz conta que a gravidez alterou profundamente sua rotina. “Achava muito importante ficar bem perto do Pietro em seu primeiro ano de vida. Nem para malhar tive tempo, que vergonha. O máximo que pratiquei foi levantamento de filho”, brinca a atriz.

O boto-rosa da Giovanna

Natural do Acre, a autora Glória Perez cresceu rodeada pelos mitos do Norte. É por isso que consegue contá-los com desenvoltura, como faz com a história do boto-rosa na minissérie “Amazônia”. Reza a crença local que a transformação do animal em homem nunca é completa: como as narinas permanecem no topo da cabeça, ele sempre usa chapéu. Curiosamente, Tavinho (Paulo Nigro) aparece de chapéu em sua primeira cena no programa. E Delzuite (Giovanna Antonelli) aproveita a deixa para dizer que o “filho é do boto”.

“Na cidade, o homem está em um mundo muito familiar porque foi construído por suas próprias mãos. Na floresta é o inverso: quem domina é a natureza. Os encantos e assombrações estão sempre presentes no cotidiano da floresta, são formas de explicar o desconhecido. Algumas vezes, os mitos se tornam até didáticos: se você abate um animal da floresta sem necessidade, por exemplo vai apanhar do caboclinho da mata”, diz Glória.

Entre os índios, os contos mágicos são ainda mais abundantes. Um dos mais famosos versa sobre a origem da vitória-régia, planta característica da Amazônia. Os mais velhos garantem que a flor esconde uma jovem índia, que vive sob o feitiço da lua. Ao tentar tocar a lua refletida em um lago, a garota teria caído na água, onde desapareceu. Com pena, a lua teria transformado a índia em vitória-régia, a estrela das águas.

Na tribo dos Maués, o mito mais difundido explica a origem da fruta guaraná. Dizem que após muito pedir um filho para o deus Tupã, um casal de índios é atendido e se torna alvo da inveja de Jurupari, o deus da escuridão. Disfarçado de serpente,ele teria matado a criança. Neste momento, trovões ecoaram pela aldeia e a mãe da criança, chorando muito, entendeu que os trovões eram uma mensagem de Tupã, dizendo que ela deveria plantar os olhos da criança e que deles nasceria uma nova planta. Teria surgido, assim, o guaraná, cujas sementes imitam olhos humanos.

Se o boto vive a tentar as moças, para os rapazes a perdição é simbolizada por Iara, a ninfa das águas. Alguns indígenas juram que já viram a sereia em muitos rios e igarapés. A crença neste mito é tão forte, que nos lugares em que ela teria aparecido muita gente evita passar no fim da tarde. Os homens do Norte comentam que Iara geralmente se mostra com pernas, para logo em seguida transformar-se em sereia e atrair suas vítimas. Para livrar-se do poder de sedução dela, os indígenas acreditam que a pessoa deve comer muito alho e, depois, esfregá-lo por todo o corpo.

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