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Texto: Scott Wallace / Fotos: Alex Webb 

No tempo em que você levará para ler esta reportagem, uma área de floresta equivalente a 150 campos de futebol terá desaparecido. As forças do mercado globalizado estão invadindo a Amazônia, acelerando a destruição. Nas últimas três décadas, contam-se às centenas as pessoas que morreram em conflitos por terras; um número incontável de outras vive sob o império do medo e da incerteza, com as vidas ameaçadas. Nessa fronteira agrícola sem lei e dominada por armas, motosserras e tratores, os funcionários e agentes do governo podem ser corruptos e ineficazes ou então mal equipados e desprovidos de recursos. Agora, produtores de soja estão se juntando aos madeireiros e aos criadores de gado, intensificando o desmatamento e fragmentando ainda mais a imensa floresta tropical do Brasil.Ao longo dos últimos 40 anos, quase 20% da floresta amazônica foi derrubada – mais que em todos os 450 anos anteriores de colonização do país. Os cientistas temem que outros 20% das árvores sejam eliminados nas próximas duas décadas. Será o início do colapso ecológico da floresta. Intacta, a Amazônia responde por metade de toda a chuva que cai na região, graças à umidade que libera na atmosfera. Com o fim de parte dessas precipitações devido ao desmatamento, podemos chegar a um ponto em que as árvores remanescentes vão morrer por falta de umidade. Se tal processo for intensificado pelo aquecimento global, secas violentas irão abrir as portas a incêndios capazes de consumir ainda mais a floresta. Em 2005, uma dessas secas reduziu em até 15 metros o nível dos rios e deixou isoladas centenas de comunidades. Ao mesmo tempo, como as árvores estão sendo queimadas para abrir novas áreas de cultivo nos estados do Pará, Mato Grosso, Acre e Rondônia, o país tornou-se um dos maiores emissores em todo o mundo de gases que contribuem para o efeito estufa. Os sinais da tragédia já são visíveis por toda a parte.Tudo, sempre, começa com a abertura de uma estrada. Com exceção de um punhado de vias estaduais e federais – entre as quais a Transamazônica, no sentido leste-oeste, e a polêmica BR-163, a “rodovia da soja” que, com seus 1 770 quilômetros, atravessa a Amazônia desde o Mato Grosso até a cidade de Santarém, no Pará -, quase todas as estradas da região são clandestinas. Há quase 170 mil quilômetros desses caminhos, em sua maioria abertos sem autorização por madeireiros em busca de mogno e outras madeiras nobres que alcançam altos preços no exterior.

No Brasil, as conseqüências da exploração da madeira quase sempre são mais danosas que a própria extração. Uma vez que as árvores são derrubadas e os madeireiros seguem adiante, as estradas proporcionam acesso a uma explosiva mistura de posseiros, especuladores, fazendeiros, lavradores e, invariavelmente, pistoleiros. Os açambarcadores de terras seguem até o interior da floresta, antes impenetrável, e ali devastam imensas áreas a fim de lhes dar uma aparência de propriedade legítima. A apropriação ilegal de terras – possibilitada por corrupção, táticas violentas e escrituras forjadas – é uma prática tão comum que tem um nome específico: grilagem. Tal nome deve-se ao fato de no passado os grileiros colocarem os falsos títulos de propriedade em uma gaveta onde grilos famintos roíam o papel, fazendo com que parecesse antigo. Ao auditorar registros de fazendas na Amazônia relativos aos três últimos anos, o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) cancelou cerca de 62 mil títulos por causa de indícios de fraude.

Em Guarantã do Norte, cidade de 32 mil habitantes na extremidade norte do trecho asfaltado da BR-163, no Mato Grosso, fica a sede regional do Ibama, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis. Contando com apenas alguns fiscais para monitorar um território que se estende por milhares de quilômetros quadrados, o responsável pelo escritório, Márcio da Costa, pouco pode fazer. Ele trabalha em uma sala improvisada atrás dos restos chamuscados da antiga sede, incendiada em 2004 por uma multidão furiosa com o fato de fiscais do Ibama e policiais terem desmantelado uma quadrilha de traficantes de madeira, fechando serrarias clandestinas e multando em milhões de dólares madeireiros na cidade vizinha de Alta Floresta. A investigação sobre o incêndio criminoso não conseguiu apontar sequer um suspeito.

Um barulhento aparelho de ar condicionado pouco alivia o ar denso e úmido quando visito Márcio da Costa e ele me mostra um certificado de exploração de madeira emitido em 2004, assim como uma cópia feita com papel-carbono.

A cópia, assinada por um fiscal de exportações a 2 414 quilômetros dali, no Sul do país, relacionava milhares de metros cúbicos de madeira que simplesmente não constavam do documento original – toda ela comercializada de forma ilegal. “Ontem, apreendemos cinco caminhões carregados vindos da mesma área”, comenta.

Em 2005, depois que pistoleiros contratados por grileiros assassinaram a freira e militante ambientalista Dorothy Stang, nascida nos Estados Unidos mas naturalizada brasileira, o governo aumentou a repressão, cancelando autorizações de exploração de madeira em toda a Amazônia – a maioria das quais adulterada para justificar o contrabando. A Polícia Federal e o Ibama ampliaram suas investigações. Tropas foram enviadas ao Mato Grosso e ao Pará e confiscaram caminhões e caminhões de madeira extraída ilegalmente. Dentre mais de 300 pessoas detidas, cerca de 100 eram funcionários do próprio Ibama envolvidos em um amplo esquema para a venda de milhões de metros cúbicos de madeira de lei a compradores dos Estados Unidos, Europa e Ásia.

A fim de reduzir as fraudes, as autoridades pretendem implantar um cadastramento eletrônico das licenças florestais. Por outro lado, os agentes do governo estão recorrendo a dados fornecidos por satélites e sistemas de sensoriamento remoto para manter sob controle as atividades dos grileiros. No entanto, mesmo quando surpreendem um desmatamento ilegal, em geral pouco podem fazer, dada a falta de pessoal e equipamentos. Se ocorre alguma ação policial, os recursos mobilizados costumam ser de proporções modestas.

Essa foi a experiência de José Rosa, fazendeiro de Matupá, 32 quilômetros ao sul de Guarantã do Norte, ao descobrir que grileiros vinham desmatando suas terras. Rosa nada tem contra a idéia de derrubar a floresta – ele próprio planeja ampliar sua área de cultivo para mais de mil hectares no próximo ano -, mas não se conforma com o fato de estarem roubando de maneira tão descarada. A única ajuda com que pôde contar foram dois funcionários do Ibama e um policial local. No total, dispunham apenas de uma pistola e uma escopeta – um arsenal ineficaz diante de grileiros mais bem armados. Para encher o tanque de sua caminhonete, os fiscais do Ibama tiveram de usar o próprio dinheiro.

Evanoir Tibaldi, de 42 anos, o comandante dessa tropa improvisada, trabalha há 15 para o Ibama no norte do Mato Grosso. Quando lhe pergunto sobre o sistema de imagens por satélite que supostamente proporcionaria ao pessoal de campo as informações necessárias para capturar os grileiros, Tibaldi responde: “Isso é piada… Nem sequer temos acesso à internet no escritório”.

Com camisa esporte vermelha suja e chapéu amassado, José Rosa não se parece com nenhum rico fazendeiro, dono de 7 284 hectares e 3,5 mil cabeças de gado. Sua propriedade está a duas horas de carro de Matupá, por uma estrada de terra que corta grandes planícies e áreas de colina onde ainda se vêem blocos de floresta entre verdejantes plantações de arroz e soja. “A terra aqui é perfeita para a soja”, diz.

Quando chegamos à fazenda, subimos por entre pastos cercados e penetramos na escuridão da floresta, seguindo por uma estrada precária aberta pelos grileiros. Cruzamos um riacho de águas tão límpidas que paramos para nos refrescar. Enquanto contemplava a catedral verde que se erguia a nossa volta, tive a sensação de estarmos em um lugar sagrado que, em outras circunstâncias, só poderia ser alcançado após semanas de caminhada. Uma borboleta-azul esvoaçou perto de nós, uma maravilha natural entre incontáveis outras ainda preservadas. Por quanto tempo? Lembrando-me do caldo espesso em que se transformaram os córregos já circundados por terras de cultivo mais ao sul, estimei que seria questão de meses – não mais que um ano – para que essas sombras profundas e misteriosas fossem expostas à causticante luz do Sol e para que a água fresca já não mais pudesse ser bebida.

Depois de sacolejar por profundas trilhas escavadas por pneus, de repente saímos em uma estrada mais larga e recentemente nivelada. “Isso não foi feito por gente pobre”, diz José Rosa. “São os grileiros. E eles têm muito dinheiro. Se me encontrarem por aqui sozinho, acabam comigo.”

A sensação de impunidade é tanta que os invasores ergueram uma porteira e fecharam a estrada. A partir dali, seguimos a pé. Tibaldi fez um sinal para que fizéssemos silêncio enquanto tirava uma pistola Beretta de sua bolsa. Em seguida, chegávamos a uma clareira, onde havia uma precária tenda de lona alaranjada capaz de abrigar uma dúzia de homens. Sob uma mesa, uma caixa com suprimentos: açúcar, farinha, café. “Eles fugiram de nós”, diz ele. Tudo estava silencioso, exceto pelos gritos de um par de tucanos na copa das árvores. O dia estava chegando ao fim, nuvens escuras se acumulavam a leste, e nenhum de nós tinha vontade de permanecer ali durante a noite.

Evidentemente alguém havia alertado os grileiros. José Rosa ficou furioso. Da próxima vez ele tentaria obter ajuda da Polícia Federal, cujos agentes não são da região. “Essa é a única maneira de não serem avisados”, diz, com voz baixa e de olho no policial do lugarejo. “Mas não se pode dizer isso às claras. Para sobreviver aqui, a gente tem de calar a boca e se fazer de desentendido.”

A corrida pelas terras da Amazônia começou na década de 1970, quando a ditadura militar adotou uma política de “integrar para não entregar” – ou seja, ocupar a região para não correr o risco de perdê-la. Vindos do Nordeste e do Sul, colonos empobrecidos instalaram-se na região ao longo dos grandes eixos de penetração na floresta, as rodovias Transamazônica e BR-163. Muitos morreram ou retornaram a seus locais de origem, mas outros se adaptaram às duras condições de vida, recorrendo a queimadas para cultivar roças de subsistência.

Os colonos mais pobres raramente receberam escritura das terras que ocupavam, mas o governo concedeu a devida documentação aos mais bem relacionados – lotes de até 2 994 hectares -, de modo a incentivar a derrubada de árvores, o cultivo e outros tipos de exploração econômica. Se os beneficiários (em geral, pessoas que não viviam na região) não conseguissem tornar produtiva a terra no prazo de cinco anos, eles perderiam o direito à propriedade definitiva, e a posse retornaria ao governo federal. Todavia, mesmo não realizando nada, quase todos se consideravam os legítimos donos das terras. Enquanto isso, os lavradores sem títulos passaram a ocupar áreas cuja posse não fora retomada pelo governo. O resultado foi um confronto sangrento entre as poderosas elites absenteístas que devastam para implantar projetos de grande porte e os pequenos lavradores que, embora destruindo trechos restritos para cultivo, continuam a depender da floresta em torno para sua subsistência.

“O que está acontecendo hoje na Amazônia é um choque de dois modelos de desenvolvimento”, explica Felício Pontes, membro de uma nova geração de procuradores do Estado empenhados no combate contra grilagem e crimes ambientais. Nós estávamos visitando um cemitério simulado com 820 cruzes, representativo do custo humano dos conflitos fundiários no Pará, por ocasião do primeiro aniversário da morte de Dorothy Stang. “O primeiro modelo foi implantado durante a ditadura e baseava-se na extração de madeira e na criação de gado. É predatório, pois provoca destruição, não é sustentável e devasta a floresta”. O modelo alternativo, defendido pela freira, é chamado por Pontes de “ambientalismo social”.

O primeiro modelo concentra a riqueza, ao passo que o segundo supõe sua dispersão em cooperativas agroflorestais de pequena escala.

Freira da congregação de Notre Dame de Namur, a irmã Dorothy Stang, nascida e criada em Ohio, era admirada por sua dedicação ao ideal de uma agricultura familiar capaz de permitir a subsistência sem devastar a floresta. Desde sua base na pequena cidade de Anapu, no Pará, ela trabalhou incansavelmente para organizar os colonos ao longo da Transamazônica em comunidades coesas, combativas e ambientalmente esclarecidas, aptas a enfrentar os violentos bandos de fazendeiros e especuladores interessados em apropriar-se das mesmas terras. Para a irmã Dorothy, os direitos humanos e a conservação do ambiente estavam inextricavelmente ligados na Amazônia. Embora os agricultores pobres também prejudiquem a floresta, a freira acreditava que poderiam aprender a manejar a terra de modo sustentável por uma questão de autopreservação. “A morte da floresta é o fim de nossas vidas”, costumava dizer a seus seguidores.

Sua derradeira missão, a tentativa de salvar um remoto trecho de mata conhecido como Lote 55, foi interrompida na manhã de 12 de fevereiro de 2005, quando ela topou com dois pistoleiros em um caminho na mata. Na conversa que tiveram, ouvida por um homem que a acompanhava, a freira os repreendeu – a terra não era deles, e não tinham o direito de semear capim para pastagem.

“Então você não gosta de comer carne?”, provocou um dos homens. “Não o bastante para destruir a floresta por causa disso”, respondeu ela. “Se este problema não for resolvido hoje, jamais será”, rosnou o assassino.

Dorothy o viu levar a mão ao revólver. Então ela tirou a Bíblia de sua sacola e leu um versículo do capítulo 5 do Evangelho de São Mateus: “Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão satisfeitos”. Quando se virou para partir, Rayfran das Neves Sales ergueu o braço e descarregou contra ela seu revólver.

Blairo Maggi, governador reeleito do Mato Grosso, é considerado pelo movimento ambientalista um garoto-propaganda da mentalidade predatória. Conhecido como “o rei da soja”, ele é o maior produtor mundial da leguminosa. Em 2005, Maggi recebeu outro título, bem menos honroso: o Motosserra de Ouro, concedido pelo Greenpeace pelo fato de o Mato Grosso ter sido o campeão de desmatamento no Brasil pelo terceiro ano seguido, bem no período em que ocupou o palácio do governo.

Além de cultivar soja, milho e algodão em três propriedades gigantescas e várias outras menores – totalizando mais de 400 mil hectares -, Maggi fornece crédito e adquire soja de cerca de 900 outros produtores. Sua empresa, o Grupo André Maggi, construiu toda uma cidade, Sapezal, no oeste do Mato Grosso, como núcleo de apoio à operação de uma única fazenda. E, em vez de esperar que o governo federal conclua o asfaltamento da BR-163 até a cidade paraense de Santarém, onde há um porto capaz de receber navios transoceânicos, o grupo implantou uma infra-estrutura de silos, barcaças e rebocadores, de modo a armazenar e escoar sua produção até o porto de Itacoatiara, no rio Madeira.

Ruivo e corpulento, Maggi, 50 anos, ainda guarda um ar de menino que contrasta com sua reputação de inimigo da floresta. A imagem de obstinado e realizador tornou-o muito popular em seu estado natal e uma estrela ascendente no cenário político nacional; ele não descarta a possibilidade de um dia candidatar-se à Presidência do país. Descendente de italianos, Maggi herdou terras – e a habilidade para os negócios – de seu pai, André, que começou vendendo sementes aos fazendeiros no estado do Paraná, depois mudou-se para o norte, participando da abertura da fronteira agrícola no Mato Grosso, onde fundou um império no setor do agronegócio.

A ascensão econômica de Blairo Maggi foi concomitante à aceleração do desmatamento no Brasil e sua emergência como uma potência agrícola global. O país é o maior exportador mundial de carne e fica atrás apenas dos Estados Unidos na produção de soja. “O único lugar que resta para a expansão significativa da soja é o Brasil”, diz o biólogo Oswaldo de Carvalho, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam). Em conseqüência disso, a mata continuará sendo derrubada no Pará e no Mato Grosso. Na opinião de Maggi, porém, há exagero na questão do desmatamento, uma “fobia” que afeta pessoas incapazes de entender a imensidão da Amazônia. “A Europa toda caberia dentro da Amazônia”, diz ele, “e ainda teríamos lugar para duas Inglaterras.”

O que ele acha do objetivo de Dorothy Stang, de estabelecer comunidades de lavradores que exploram a terra de maneira sustentável? “Equivocado”, diz, acrescentando que, sem subsídios proibitivos, tais projetos vão em sentido contrário ao da história e estão condenados ao fracasso. “Todos os negócios tendem a se concentrar. Com a queda dos preços unitários, só sobrevive quem produz em volumes cada vez maiores.”

Nem todos os ambientalistas têm uma opinião completamente negativa a respeito de Maggi. “Ele entende a vantagem de o setor privado fazer a coisa direito agora que está buscando transformar o Mato Grosso em uma potência econômica mundial”, comenta Dan Nepstad, do Centro de Pesquisa Woods Hole, em Massachusetts. Juntamente com o Ipam, a instituição americana está realizando pesquisas em uma das fazendas de Maggi, a Tanguro, com 81 746 hectares, localizada na nascente do rio Xingu. Instigado por Nepstad e outros, Maggi passou a defender a certificação da soja cultivada de acordo com critérios ambientais e sociais – que ainda precisam ser definidos. O fato é que Maggi já impõe condições para fazer negócio com os produtores menores, excluindo aqueles que cultivam terras desmatadas ilegalmente, usam mão-de-obra escrava ou utilizam agrotóxicos a menos de 500 metros de cursos d’água. “Há possibilidade de uma situação em que todos saem ganhando”, diz Nepstad, para quem a parceria entre ONGs, governo e setor privado oferece a melhor possibilidade de interromper a destruição desenfreada da floresta.

“Somos muito cuidadosos em termos ambientais e sociais”, diz Maggi, ao iniciarmos uma visita à Fazenda Tanguro. “Fazemos tudo dentro da lei”, emenda, apontando com orgulho o reluzente refeitório da fazenda e outras instalações.

Sob chuva insistente, com a caminhonete derrapando na lama, tomamos uma estrada reta, à margem de plantação de soja verde-amarelada. De um lado, intermináveis fileiras de plantas com meio metro de altura configuram perfeita imagem da moderna agricultura mecanizada. Um observador leigo talvez ficasse impressionado com o lustro esverdeado das plantas, sem se dar conta da mistura tóxica necessária para obter tal efeito. O cultivo da soja requer enormes quantidades de cal para neutralizar a acidez do solo, assim como fertilizantes, pesticidas e herbicidas. Desde os cientistas até os moradores das vilas, quase todos, ao contrário de Maggi, se mostram alarmados com a quantidade de agrotóxicos que se está infiltrando na bacia fluvial. Comunidades indígenas, como a dos enawenê-nawês em Mato Grosso, queixam-se do envenenamento da água e das mortandades de peixes.

Maggi não admite nenhum efeito deletério do cultivo da soja. “Ele é benéfico para o ambiente”, avalia ele, fitando-me nos olhos. “Por aqui a terra é pobre demais. Sem medidas corretivas não dá para produzir. Não é verdade que a soja piore o solo. Pelo contrário, ela o deixa mais rico do que é naturalmente. Em seguida, será possível plantar ali o que se quiser.” De fato, há consenso entre os pesquisadores de que o manejo adequado das plantações de soja melhora a produtividade da terra. Mas na verdade ninguém sabe por quanto tempo os solos extremamente ácidos e superficiais da Amazônia podem ser artificialmente enriquecidos. Não está descartada, por isso, a possibilidade de que no fim ocorra uma catástrofe dupla: ambiental e econômica.

No outro lado da estradinha, vê-se uma fileira de árvores de 30 metros de altura, cobertas de cipós, como se o âmago de uma floresta antiquíssima tivesse sido exposto por um corte transversal. Esses panoramas de campos geométricos recortados no meio da floresta virgem tornam-se cada vez mais corriqueiros no Pará e no Mato Grosso à medida que avançam as áreas de cultivo de soja. Ainda que muitos dos desmatamentos sejam ilegais, nem sempre é assim. Por lei, os fazendeiros têm o direito de derrubar as árvores em até 20% de suas propriedades, mas são obrigados a manter os 80% restantes como “reserva legal”. Caso a mata em suas terras seja do tipo “de transição” – entre a floresta e o cerrado -, então eles têm autorização para derrubar até metade da área. Mas a legislação só vale quando há vontade de que seja respeitada. “As imagens obtidas de satélites mostram que em muitas zonas avançadas a lei quase nunca é cumprida”, comenta Stephan Schwartzman, da Environmental Defense, uma ONG com base nos Estados Unidos. “E, se não há punição, quem se importa com a lei?”

Aparentemente, os proprietários de terras estão começando a tomar consciência de que podem ser punidos. Com as medidas implantadas após o assassinato da irmã Dorothy, os fazendeiros que já haviam ultrapassado o limite de desmatamento passaram a buscar maneiras de regularizar a situação. Disposto a ajudá-los, o governador Maggi vem permitindo que comprem áreas não-contíguas de floresta de modo a completar o percentual necessário de “reserva legal”. Embora tenha prometido impor multas pesadas aos transgressores, ele ainda demonstra certa relutância em fazer cumprir a lei. “Em todo o mundo, só os produtores brasileiros são obrigados a manter essa reserva”, comenta. “Na verdade, eles deveriam receber algum tipo de compensação por manter intocadas essas áreas.”

Os brasileiros não são os únicos a lucrar com a soja. Ao longo do trecho pavimentado de 800 quilômetros da BR-163, entre Cuiabá e Guarantã do Norte, há pelo menos cinco concessionárias da John Deere, fabricante americana de máquinas agrícolas. Na época da colheita, esquadras de colheitadeiras dessa marca são vistas percorrendo os campos que margeiam a rodovia, lançando rios de soja dourada nos caminhões abertos que depois seguem para os reluzentes silos recém-construídos por ADM, Bunge e Cargill – todas empresas multinacionais americanas.

Como a BR-163 ainda não foi asfaltada até o rio Amazonas, a maior parte da soja produzida no Mato Grosso é transportada em comboios movidos a diesel que precisam percorrer 1 930 traiçoeiros quilômetros até os congestionados portos no Sudeste do país. Em 2003, assim que o governo anunciou que planejava asfaltar os últimos 1 046 quilômetros da BR-163, de Guarantã do Norte a Santarém, teve início uma frenética corrida por terras na região. Tão grande foi a devastação que as autoridades se viram forçadas a suspender a pavimentação até que pudessem formular uma estratégia de manejo da floresta. O plano foi afinal divulgado em fevereiro de 2006, um ano após a morte da irmã Dorothy, quando o presidente Lula anunciou a proteção de quase 6,5 milhões de hectares de floresta tropical no flanco oeste da BR-163 entre Guarantã e Santarém. (Uma região distante do Lote 55, o trecho de floresta pelo qual morreu a freira, onde os grileiros continuam atuando impunemente.) Nessa área, empresas ambientalmente responsáveis receberiam autorização para realizar um manejo sustentável, na qual não seriam permitidos desmatamentos de grandes áreas nem povoamento.

Essa zona protegida irá agregar-se a um número cada vez maior de parques, reservas e unidades de conservação que, juntamente com os territórios indígenas, formam uma linha de defesa contra a expansão da fronteira agrícola para a região central da Amazônia. É possível que essas medidas tenham sido positivas. O ritmo do desmatamento caiu mais de 30% em 2005, e os dados preliminares para 2006 são igualmente animadores. As terras indígenas na bacia do Xingu estão-se revelando uma barreira eficaz. Ali, guerreiros caiapós e panarás, armados com porretes e escopetas, patrulham suas terras usando imagens de satélite, fornecidas por ONGs internacionais, que apontam os desmatamentos ilegais.

Como já sabem de maneira intuitiva os índios, os benefícios proporcionados pela Amazônia são de valor incalculável: a circulação da água (a floresta produz não só metade de todas as suas precipitações mas também grande parte da chuva que cai ao sul da Amazônia e a leste dos Andes), o seqüestro do carbono (ao reter e absorver o dióxido de carbono, a floresta ameniza o aquecimento global e limpa a atmosfera) e a manutenção de uma biodiversidade rara. Mas o mercado ainda tem de atribuir um valor à preservação: atualmente é muito mais lucrativo derrubar a mata para ali desenvolver atividades pecuárias e agrícolas do que mantê-la intocada. “O desmatamento da floresta tropical é um exemplo clássico de fracasso do mercado”, diz Stephan Schwartzman. Curiosamente, o governador Maggi talvez concordasse com a solução proposta por Schwartzman: “É urgente encontrarmos mecanismos para compensar os povos da floresta pelos serviços ambientais proporcionados por suas matas”.

Para a Cargill, um conglomerado de alimentos sediado em Minnesota, a maior prioridade é fazer com que as sementes de soja cheguem ao mercado da maneira mais barata possível. Antecipando-se à pavimentação completa da BR-163, em 2003 a Cargill construiu um depósito e um porto de águas profundas em Santarém. Até que possa transportar a soja até lá pela estrada, a Cargill, assim como o Grupo Maggi, escoa quase toda a sua produção por meio de barcaças que seguem pelo rio Madeira. “Exportamos quase 2 milhões de toneladas”, conta o orgulhoso Douglas Odoni, gerente de operações da Cargill em Santarém. Estávamos em uma plataforma acima do navio-graneleiro cipriota Evdoxos enquanto um tubo gigantesco lançava sementes de soja ao ventre da embarcação ao ritmo de mais de 1,2 mil toneladas por hora. Dali a duas semanas, o Evdoxos aportaria em Amsterdã, descarregando mais de 47 mil toneladas de soja brasileira em uma instalação de esmagamento que produz óleo e ração.

Desde o início, as operações da Cargill na Amazônia foram polêmicas. Procuradores federais estão processando a companhia por seu suposto fracasso em realizar um estudo adequado do impacto ambiental do porto. E a construção de uma fábrica para lavagem e secagem da soja deixou furiosos os ambientalistas. Para evitar a deterioração, as sementes de soja precisam ser lavadas antes do transporte, e só com a instalação do equipamento os fazendeiros nas proximidades de Santarém passaram a ter comprador para a sua soja e incentivo para produzir. Mas isso provocou um dramático aumento do desmatamento. “Se a Cargill não estivesse aqui, ninguém plantaria soja”, admite Odoni. “Mas também não haveria impostos e renda para a comunidade local.”

No verão passado, a Cargill e outros grandes negociantes concordaram com uma moratória de dois anos na compra de soja cultivada em terras recém-desmatadas na Amazônia. Tal acordo é um sinal para os produtores de que o impacto ambiental de sua atividade assume importância cada vez maior no mercado mundial.

Para muita gente em Belterra, cidade a uma hora de carro ao sul de Santarém, a moratória chegou tarde demais. Como líder do sindicato local dos trabalhadores rurais, Auricélia Nunes, de 33 anos, representa cerca de 5 mil famílias de agricultores. Essas pessoas, segundo ela, vinham sobrevivendo decentemente com a produção de suas pequenas propriedades até que, no fim da década de 1990, forasteiros recém-chegados do Sul começaram a comprar terras por valores ínfimos. “Muitos lavradores pequenos não têm a menor idéia do valor do dinheiro”, conta Auricélia. “Eles imaginavam que o dinheiro iria durar para sempre.” Não durou e agora estão condenados a viver nas favelas que crescem na periferia de Santarém.

Aqueles que se recusaram a vender viram-se ilhados, à medida que motosserras e queimadas consumiam as árvores até o limite de suas propriedades. Estas foram invadidas por serpentes, insetos e roedores que tentavam escapar do apocalipse e, quando os tratores começaram a fumigar os campos abertos, suas casas foram envoltas em nuvens de agrotóxicos. “A saúde de todos os seres foi ameaçada”, diz Auricélia. “Pessoas caíram doentes. Os animais começaram a morrer.”

Auricélia e seu marido, Everaldo Pimentel, ainda sobrevivem praticando uma agricultura familiar tradicional, cultivando milho, abóbora e feijão, e criando animais em 28 hectares. Mas Everaldo fez questão de me mostrar outro lugar, a 15 minutos de carro por uma estrada através de plantações de soja: a casa que seu avô construíra à sombra de enormes mangueiras. Era ali, contou Everaldo, que ele havia crescido. Quatro anos atrás, seu pai vendeu o local para um forasteiro. Logo em seguida surgiram trabalhadores que abateram todas as árvores. “Em 30 segundos”, diz ele, “eles conseguem destruir mais do que um pequeno agricultor que ali vive por 30 anos.”

Everaldo apontou uma laje de alvenaria no chão, coberta por ervas e cipós. “Ali ficava a casa.” Uma dúzia de imensas mangueiras estavam tombadas no terreno, derrubadas pelas motosserras, e apodreciam sob o Sol inclemente. “Jamais teríamos vendido se soubéssemos o que eles pretendiam fazer”, diz Everaldo, enquanto sobe no toco que restou de uma mangueira. “Meu avô plantou essa árvore há 100 anos”, diz, contemplando o campo vazio e desolado. Em seguida, cobre o rosto com as mãos e começa a chorar. “Era tão bonito por aqui. Você tinha que ver”.

in National Geographic Brasil – Ed. 82 – 01/01/2007

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