A questão fundiária é o pano de fundo de uma caravana que sairá do Xingu no dia 28 de janeiro de 2007 e chegará à cidade de Dourados, no Mato Grosso do Sul, dia 31 do mesmo mês. O povo Waurá trará solidariedade e mostrará um pouco do modo de vida e da cultura do Alto Xingu.

Segundo estudos do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), Mato Grosso do Sul é o estado com maior número de mortes de índios. Em 2005, 29 dos 43 assassinatos de indígenas ocorreram lá, na maioria com os Guarani-Kaiowás. Segundo o mesmo estudo, a grande maioria desses assassinatos tem ligação direta com a indefinição fundiária na região, que emperra iniciativas de desenvolvimento de políticas públicas e de ações de sustentabilidade socioambiental por parte dos povos indígenas.

Cerca de 400 indígenas da etnia Guarani Kaiowa e Ñandéva aguardam a caravana. Uma casa de reza e um barracão que servirá como dormitório já estão sendo construídos para abrigar os visitantes. O evento que tem como objetivo trocar experiências e formas de enfrentar a situação vivida pelos Guarani levará cerca de 50 waurá até a aldeia de Lima Campo, localizada a 60km da cidade de Dourados.

Para viabilizar o projeto, a organização não-governamental ACT Brasil está organizando a caravana com apoio do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome e a Prefeitura de Dourados.

ENTENDA O CONFLITO:

Os povos indígenas Guarani Kaiowa e Ñandéva, do Mato Grosso do Sul, são vítimas de um processo histórico equivocado praticado por alguns setores do Estado Brasileiro e, como conseqüência, são vítima de muitos conflitos territoriais, mas também com problemas graves de saúde que incluem fome, desnutrição, mortalidade infantil, falta de condições mínimas de sobrevivência, o que leva um quadro alarmante de violência e suicídio.

Em 2005, dois fatos marcantes ocorreram de grande repercussão nacional e internacional: No Município de Dourados, ocorreram 16 mortes de crianças em dois meses, por fome e desnutrição, e a retirada dos índios da Terra Indígena Ñanderu Marangatu no Município de Antônio João, homologada pelo Presidente Lula após 20 anos de luta, resultado de uma decisão do Supremo Tribunal Federal, que anulou a homologação da referida terra, obrigando os índios ocuparem as margens da rodovia MS 384 e a conseqüência também foi a morte de 02 crianças por desnutrição e mais de 300 crianças de 0 a 10 anos com desnutrição severa.

QUEM SÃO OS WAURÁ?

Os índios Waurá são habitantes milenares da região da bacia do rio Xingu. Falam uma língua denominada Maipure, da família lingüística Aruak, assim como seus vizinhos do Alto Xingu, os povos Yawalapiti e Mehinako. Os Waurá encontram-se atualmente distribuídos em duas aldeias no Parque indígena do Xingu.

Sua população total é de cerca de 300 pessoas. Alguns locais de grande importância para os Waurá permaneceram fora da terra indígena e hoje são reivindicados por esse povo. Tal é o caso da caverna de Kamukuaká, que compõe seu antigo território e está intrinsecamente ligado à sua cultura e mitologia. Conhecedores da importância do reconhecimento das terras tradicionalmente ocupadas pelos índios como meio de garantir sua sobrevivência física e cultural, os waurás decidiram, então, se engajar nessa iniciativa e pediram apoio da ACT Brasil.

Portanto, a Caravana é a iniciativa de um povo indígena que se sensibilizou com as condições adversas que um outro povo indígena tem encontrado para se perpetuar enquanto tal.

SOBRE A ACT BRASIL:

A organização não governamental ACT Brasil foi criada há cinco anos por um grupo de profissionais preocupados com o fortalecimento de populações tradicionais e com iniciativas de proteção biocultural às mesmas. A partir dos princípios de fortalecimento cultural e conservação ambiental iniciou seus projetos em parceria com diversas etnias. Nesse sentido, pode-se destacar os trabalhos de mapeamento cultural participativo nas Terras Indígenas do Xingu (Mato Grosso), Tumucumaque e Paru D´Este (Amapá e Pará).

O trabalho de mapeamento cultural abrangeu cerca de sete milhões de hectares. Além de trazer uma metodologia inovadora de mapeamento em terras indígenas, seus produtos são uma importante ferramenta para que as sociedades indígenas desenvolvam estratégias de proteção, gestão e conservação ambiental e de revalorização ampla de suas manifestações culturais.

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