A ampliação do conhecimento sobre as mudanças climáticas que ocorrem na biosfera amazônica e suas implicações para o resto do mundo é o objetivo de centenas de cientistas que vêm atuando em um dos maiores projetos do gênero no País, o Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA, da sigla em inglês) — que, hoje, registra a participação de mais de mil pesquisadores, sendo mais de 20% deles estrangeiros, notadamente americanos.
O LBA foi concebido para estudar os efeitos que a floresta Amazônica gera no mundo e os efeitos que as mudanças atmosféricas geram na floresta. O programa começou em 1998, auge das discussões internacionais sobre meio ambiente, e tinha prazo de cooperação financeira com a União Européia e com a Agência Espacial Norte-Americana (NASA), este previsto para quatro anos. De acordo com convênio firmado com os estrangeiros, durante esse período o governo brasileiro deveria se preparar para assumir o projeto. Mas isso não ocorreu, e agora o LBA sobrevive com recursos bem menores do que tinha quando foi iniciado.
Atualmente há 15 projetos em andamento. Já foram produzidos cerca de 150 teses de mestrado e doutorado com a participação de mais de 20 laboratórios.
“Apesar da participação estrangeira, hoje o Brasil detém a grande maioria das publicações científicas e o maior peso dos estudos sobre o clima na Amazônia”, destaca o coordenador regional do LBA, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Flávio Luizão.
Sem dinheiro
Depois de receber volumosos recursos da comunidade internacional e fazer descobertas de importância mundial, o LBA está com dificuldades até para pagar os funcionários e cientistas que continuam o trabalho na floresta.
“Antes vivíamos com uma média de recursos anuais de US$ 15 milhões, com a ajuda de toda a comunidade internacional. Agora temos que viver com os menos de US$ 2 milhões do governo brasileiro. Estamos aprendendo a trabalhar com a realidade das coisas”, lamentou Luizão.
Para não parar o ritmo dos trabalhos, os diretores do LBA começaram a participar de concorrências no exterior em busca de recursos de governos estrangeiros. Ontem, o Diário Oficial da União (DOU) trazia a assinatura de um convênio com o governo da Holanda, legalizando a permanência de um grupo de pesquisadores enviados para ajudar a equipe brasileira. No final do ano passado, o Ministério da Ciência e Tecnologia prorrogou por mais um ano a autorização para 67 pesquisadores estrangeiros participaram do projeto no País por meio do convênio com a Universidade de Harvard. Parte dos pesquisadores pertence a várias instituições, como as universidades da Califórnia, do Colorado e do National Oceanic and Atmospheric Administration, (NOAA), dos Estados Unidos, além do Instituto Max Planck, da Alemanha, da Universidade de Estocolmo, da Suécia.
“Apresentamos projetos nas licitações internacionais, mas são projetos individuais, por períodos curtos, e de poucos recursos. Mesmo assim já ajudam”, explicou o coordenador.
O programa inicial do LBA foi recebido com desconfiança por uma parte dos parlamentares e da sociedade brasileira pela presença da NASA e dos estrangeiros. “Não foram registrados casos de pirataria nem roubo de dados e todo o trabalho de campo foi feito em conjunto com os brasileiros”, atesta o coordenador, apontando que as pressões iniciais proibiram a extensão da pesquisa do clima sobre a biodiversidade — o que poderia abrir uma brecha para a realização de biopirataria pelos cientistas —, ficando restrita ao sensoriamento remoto.
Descobertas inovadoras
“A Amazônia não é um ecossistema, é um conjunto muito grande de ecossistemas, cuja dinâmica é muito importante para o clima mundial”, avalia Adalberto Luis Val, diretor do Inpa. Em julho do ano passado, o Brasil e os Estados Unidos assinaram outro convênio para garantir a manutenção das pesquisas climáticas e seus efeitos na vida da floresta, denominado “Determinantes Biológicas de Fragmentos Florestais”, também gerido pelo Inpa.
O programa permitiu avanços nos estudos dos impactos climáticos para monitorar a seca e o efeito ‘El Niño’. Segundo Luizão, foi possível mensurar os reflexos dessas alterações na fisiologia das plantas — como as mudanças nas suas raízes e folhas, além dos efeitos do ozônio na baixa atmosfera em relação à produtividade da lavoura. Outra novidade gerada pelo governo — segundo os estudos do Inpa — é que o LBA já comprovou, por exemplo, que os desflorestamentos e as queimadas na Amazônia, aceleram o efeito estufa e reduzem a radiação solar para fotossíntese das plantas em até 60%.
O LBA também aponta dúvidas, como a possível mudança do papel da floresta de absorver o dióxido de carbono após o aumento da queima de suas árvores, o que a tornaria um grande emissor desses gases. A sua função de limpar o ar ao reter esse gás pode ter sido alterado pelos incêndios, que liberam o carbono contaminando o ar e invertendo o papel de filtro da floresta.
Em outra pesquisa, o LBA descobriu que as árvores têm mecanismos que lhes permitem sobreviver às vazantes extremas dos rios, como a de 2005. Mas o programa ainda não apontou com evidências se aquela seca foi resultado das mudanças climáticas globais ou provocada pelas queimadas na região. Na pesquisa intitulada “Seca Floresta”, coordenada por Rafael Oliveira, Ph.D. em Biologia Integrativa, foi feita a simulação por três anos da redução das chuvas pela metade e apontou que as grandes árvores conseguem sobreviver a essas vazantes. O trabalho revelou que as raízes centrais conseguiam transportar água de áreas mais profundas do solo, abundante em boa parte da região, durante a noite.

in Diário do Comércio, Indústria e Serviços