A minissérie transforma aquilo que aparentemente é coisa do passado numa bem-urdida trama que tem vinculação com o presente

por Moacyr Scliar

Uma ocasião, cheguei a Viena, para um encontro de escritores, e, tão logo me acomodei no hotel, liguei o televisor. Ouvi vozes em alemão, como era de esperar, mas as fisionomias que apareciam na tela eram surpreendentemente conhecidas: ali estava, por exemplo, Lucélia Santos. Era Sinhá Moça (ou Zinha Moza, na versão alemã), que fazia grande sucesso na Áustria e confirmava uma coisa que de há muito se sabe: a Globo é realmente global, ela corre mundo, fazendo até com que alguns intelectuais portugueses queixem-se do “imperialismo cultural brasileiro”. Agora: por que a Globo chega tão longe? A resposta pode ser encontrada nesta minissérie sobre a Amazônia, e se resume numa só palavra: competência. A Globo sabe fazer as coisas, e não economiza para fazê-las – cada capítulo da minissérie custa meio milhão de reais. A reconstituição de época, em termos de cenários e figurinos é excelente; há até uma consultora lingüística orientando os atores e atrizes sobre a linguagem de então; daí o surpreendente uso do “tu”, que, estamos constatando, não era só gaúcho. O trabalho dos atores é excelente: o José de Abreu está notável como o arrogante e safado dono do seringal. Por último, a própria Amazônia, com as mais belas paisagens do planeta. Uma outra coisa garante o sucesso da minissérie: o timing, o senso de oportunidade. Amazônia está na ordem do dia. Em primeiro lugar, por causa da ecologia. Nunca se falou tanto em efeito estufa, em aquecimento do planeta – e nunca se falou tanto na floresta amazônica como antídoto para a deterioração ambiental. Por outro lado, é importante conhecer a história de uma região que os brasileiros foram incorporando – coisa que o presidente Evo Morales, da Bolívia, evocou, no auge da crise entre os dois países. Em maio de 2006, Evo Morales afirmou que o Acre teria sido anexado ao território brasileiro em troca de um cavalo dado à Bolívia. O governo brasileiro ponderou que, na verdade, a anexação ocorrera depois de negociações, das quais resultaram, entre outras concessões, uma indenização de 2 milhões de libras esterlinas, o que, à época, não era pouco, e dava para comprar um bocado de cavalos. E uma tensa cena mostra exatamente isso: depois que um conflito é evitado, a bandeira boliviana dá lugar à bandeira brasileira. O apelo patriótico é mais que evidente. Conclusão: a minissérie transforma aquilo que aparentemente é coisa do passado numa bem-urdida trama que tem vinculação com o presente. Em termos de grande público é uma garantia de absoluto sucesso.