A começar do presidente Lula, que em seu discurso de posse de mais de meia hora no Congresso Nacional não citou uma vez sequer a palavra Amazônia, a grande maioria dos governadores da região, empossados no dia primeiro de janeiro, não incluiu em suas prioridades a floresta como fonte geradora de trabalho e renda para as suas populações, que formam hoje um contingente de quase 20 milhões de pessoas.         

Pelo balanço dos discursos de posse publicados esta semana na imprensa regional e nacional, as raras exceções em colocar o desenvolvimento sustentável da floresta como prioridade administrativa ficaram por conta dos governadores novatos do Acre, Binho Marques, e do Pará, Ana Júlia Carepa. Outro governador que citou a floresta como fonte de renda, embora a tenha vinculado mais ao turismo, foi o do Amapá, Waldéz de Góez.        

Os demais governantes amazônicos, no entanto, preferiram priorizar outros temas distintos das incalculáveis riquezas animais e vegetais presentes na maior floresta tropical do planeta, que se exploradas de forma sustentável, com as tecnologias geradas pelo Inpa, Embrapa, Museu Goeldi, Universidades Federais e outras instituições regionais de pesquisa, poderiam tanto preservar a floresta quanto reduzir os elevados níveis de exclusão social da região.        

Ao contrário de preservar e desenvolver sustentavelmente a última grande floresta tropical, cuja preservação vem sendo exigida cada vez mais pelo mundo, alguns governadores, como o reeleito Ivo Cassol, de Rondônia, deram a dica de que a devastação na região vai continuar nos próximos anos a partir da priorização da agropecuária e da abertura de estradas. O mesmo deve fazer o governador do Mato Grosso, Blairo Maggi, considerado o maior plantador de soja do planeta.        

Para se contrapor à tamanha irracionalidade, que só tem contribuído para aumentar o efeito estufa, ampliar a seca, elevar a temperatura e deixar as populações amazônicas ainda mais pobres e miseráveis, os governadores do Acre e do Pará vieram com um discurso bem mais progressista do que seus antecessores para trilhar o caminho da transformação da riqueza da floresta amazônica em possibilidade de inclusão social de índios, seringueiros, ribeirinhos, pequenos agricultores e outros povos da floresta.        

Ex-vice-governador e ex-secretário de Educação, Binho Marques, do Acre, defendeu a execução de um projeto socioambiental que faça da floresta um meio de desenvolvimento econômico da Amazônia com inclusão social. Já Ana Júlia, do Pará, propôs a união dos estados da Amazônia em torno de uma pauta comum do desenvolvimento sustentável, priorizando uma justa remuneração pela exploração dos recursos naturais da região. A Kaxiana publica, a seguir, um resumo das prioridades elegidas por cada um dos nove governadores da Amazônia Legal e publicadas em jornais da região e de nível nacional.

Acre vai de florestania        

Segundo publicou a Agência Brasil, da Radiobrás, ao propor a adoção de um projeto socioambiental que faça da floresta um meio de desenvolvimento econômico com inclusão social, o governador do Acre, Binho Marques, explicou que é preciso “transformar as florestas públicas em um grande negócio, que possa significar também uma distribuição de riqueza para todo o povo do Acre, especialmente índios e seringueiros”.O novo governador acreano destacou que, até bem pouco tempo, o desafio era a conscientização de que a floresta “tinha que permanecer em pé” e de que é possível ter desenvolvimento econômico sem destruir a natureza.  Segundo Marques, o primeiro passo já foi dado, e hoje “existe um consenso muito maior”.  O avanço, no entendimento do governador, se deu com a criação do conceito “florestania”, um projeto de conscientização de todo o povo da Amazônia sobre o valor da floresta, cuidado permanente com a preservação do meio ambiente e das populações tradicionais e seus modos de vida.Para o governador acreano, segundo ainda a Agência Brasil, o termo florestania “é um grande achado porque tínhamos vários programas e projetos, e essa pequena palavra consegue reunir tudo isso em um mesmo objetivo, que mobiliza o Estado, o povo e a sociedade”.  Segundo Binho Marques, o resultado da florestania já começa a aparecer. “Pode-se perceber o povo vivendo com a auto-estima mais elevada e o início de uma indústria baseada em produtos da floresta, certificados e valorização dos índios e seringueiros”, concluiu o governador.

Pará quer remuneração justa        

Além de tecer críticas à política de compensação fiscal imposta pelo governo federal aos estados exportadores, que só amplia as desigualdades regionais no país, a governadora paraense Ana Júlia Carepa, segundo publicou o jornal O Liberal (PA), propôs a união dos Estados da Amazônia em torno de uma pauta comum, priorizando uma justa remuneração pela exploração dos recursos naturais da região.        

Tendo como maiores adversários os devastadores de floresta e a exclusão social, que faz com que 10% dos paraenses mais ricos absorvam 58% da riqueza gerada no estado, Ana Júlia assegurou que no seu governo não haverá condescendência com a exploração desordenada dos recursos naturais.  Além de criar uma fundação de fomento à pesquisa, para impulsionar a produção científica e tecnológica, a nova governadora avisou que é preciso proteger o meio ambiente e que não haverá transigência com a devastação.  “Não haverá complascência com a exploração irracional de nossas florestas, em prol do lucro fácil que deixa atrás de si a pobreza e a destruição”, disse Carepa.Ana Júlia Carepa também ressaltou que é preciso dar um basta nas relações de trabalho que não obedecem ao mínimo dos direitos previstos na Constituição Federal.  “Qualquer unidade econômica, que persista em tentar funcionar sem o respeito a isto, será tratada como efetivamente é: uma fora da lei.  E seus responsáveis responderão exemplarmente”, sentenciou a governadora.

Amapá aposta no turismo   

Agência Brasil publicou que o governador reeleito do Amapá, Waldéz de Góez, do Amapá, elegeu o turismo como principal atividade econômica do estado nos próximos anos.  O principal diferencial do seu estado, segundo o governador, é a sua posição geográfica que pode servir como entrada de estrangeiros no país.“Estarmos em uma posição geopolítica estratégica porque estamos na fronteira com as Guianas, muito próximo do Caribe e com mais facilidade de chegar a Europa porque existem vôos de Paris a Guiana Francesa com tarifas domesticas de apenas 8,5 horas de vôo”, disse Góez.Se o estado investir na área, o governador acredita que possa se tornar “a entrada dos europeus na Amazônia de forma muito mais barata e mais rápida”.  E inda se tornar a porta de saída para as exportações brasileiras já que “está já na saída do Rio Amazonas.  Muitos produtos do centro-oeste e da Amazônia podem ser exportados por meio de transporte marítimo a partir do canal norte do Amazonas, saindo do Atlântico e seguindo rumo a vários continentes”.

Amazonas prefere o “choque de gestão”

O governador reeleito do Amazonas, Eduardo Braga, que vai comandar por mais quatro anos o maior estado florestal do mundo, segundo o jornal O Estado de São Paulo, não priorizou a floresta enquanto geradora de trabalho e renda. Afinal, o estado investe muito mais na Zona Franca de Manaus, que é por si só um freio ao desmatamento e às queimadas porque emprega grande parte de sua população.Em vez de priorizar a floresta, Eduardo Braga tomou posse prometendo um choque de gestão. “Estaremos nos próximos 120 dias estudando a estrutura do estado para reduzir cargos comissionados e a fusão de secretarias. Se for preciso faremos cortes drásticos para melhorar a eficiência e para que sobre mais para investimentos”, disse Braga.

Roraima quer saber do funcionalismo 

A possibilidade de sua floresta tornar-se efetivamente fonte de renda e emprego para sua grande população excluída socialmente passou longe das preocupações do governador reeleito de Roraima, Ottomar Pinto, que há quatro anos administra aquele estado florestal como uma mera repartição pública.                  Foi por isso talvez, segundo publicou o jornal O Estado de São Paulo, que Ottomar Pinto, que vai para o quarto mandato de governador em Roraima, disse em seu discurso de posse que dará prioridade ao funcionário público em seus próximos quatro anos de governo.  

Rondônia apóia a agropecuária 

Respondendo a processo no Superior Tribunal de Justiça (STJ) por comprar, com dinheiro público, o apoio político da esmagadora maioria dos deputados estaduais da última legislatura, o governador reeleito de Rondônia, Ivo Cassol, segundo o jornal O Estado de São Paulo, elegeu a agropecuária e a abertura de novas estradas como prioridades de governo.                 

A escolha do governador rondoniense implica em dizer que certamente o seu estado vai continuar sendo um dos líderes dos elevados índices de desmatamentos e queimadas na Amazônia, que foram constatados nos últimos anos dados de satélites divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). 

Mato Grosso espera reduzir impostos

Reeleito com 65,39% dos votos válidos no primeiro turno, o governador do Mato Grosso, Blairo Maggi, não quis, não quer e certamente não vai querer nunca ouvir falar em floresta dando renda e emprego para a população pobre de seu estado.Como maior plantador de soja do mundo, Maggi entrou na política para ver a Amazônia transformar-se num imenso pasto de boi ou num gigantesco campo plantado de soja, de trigo e de outras commodities, que enriquecem rapidamente grandes fazendeiros e grandes agricultores. Por isso, segundo publicou o Estadão, Blairo Maggi preferiu priorizar em seu discurso de posse temas como a redução da carga tributária do estado, a eficiência administração, a redução dos gastos públicos e a utilização dos recursos disponíveis com eficácia.

Tocantins quer agroindústria        

Outro que não tocou em desenvolvimento sustentável da floresta em seu discurso de posse foi o governador reeleito do Tocantins, Marcelo Miranda (PMDB), que disse, segundo o jornal Estadão, que o foco do seu segundo mandato será a modernização do sistema produtivo rural, com o fortalecimento da agroindústria do biodiesel. Marcelo Miranda disse, ainda, que irá investir em educação e saúde, combaterá a sonegação fiscal e buscará o equilíbrio das contas públicas.

Maranhão cuida das questões domésticas

O governador empossado no Maranhão, Jackson Lago, preferiu priorizar em seu discurso de posse, de acordo com o jornal O Imparcial, de São Luiz, as questões domésticas de governo, como o bom funcionamento da máquina administrativa e a aplicação do funcionalismo em favor de ações benéficas à população.

Preferindo filosofar do que falar em metas do governo, Lago destacou que a sabedoria e consciência de governar para todos são condições fundamentais para o sucesso do governo. Ele chamou a atenção do secretariado para o entendimento de que a participação popular é indispensável.

por Agência Kaxi