por Oriana Carneiro 

gio_01.jpgGlória Perez é conhecida por explorar em suas obras os novos conflitos e dramas humanos trazidos pelo avanço da tecnologia e, sobretudo, levantar a discussão sobre questões sociais importantes e atuais. É autora de sucessos como as novelas Barriga de Aluguel (1990), Explode Coração (1995), Pecado Capital (1998), O Clone (2001), América (2005) e as minisséries Desejo (1990) e Hilda Furacão (1998), entre outros.

    Seu novo trabalho, que estréia dia 2 de janeiro, Amazônia- De Galvez a Chico Mendes é um caso a parte, pois reconta a história da terra natal da autora. Glória Perez é de Rio Branco, capital do Acre, onde morou até os 16 anos, quando se mudou com a família para Brasília e depois para o Rio de Janeiro. A minissérie trará para a TV o universo das mitos e crenças que fizeram parte da infância e adolescência da autora.

(…)

De onde veio a idéia de escrever essa minisérie?

    Esse é o meu projeto mais antigo. Sempre quis escrever essa história. É uma das páginas mais bonitas da história do Brasil e nunca foi contada para todos os brasileiros – nem sequer figura nos livros escolares. A televisão permite que façamos isso.

    Qual é o propósito da minissérie?

    Apresentar o Acre ao Brasil e levantar a discussão sobre o destino da Amazônia. A televisão não tem o poder de mudar a realidade, mas tem o poder de disseminar a informação, de jogar um holofote sobre um assunto, de promover uma discussão nacional a respeito de um tema. Essa é a hora de os movimentos e as instituições entrarem em cena para viabilizar projetos concretos que sejam benéficos para a região. O que chega ao Brasil é a “floresta”, o “pulmão do mundo”. A vida que pulsa ali, os dramas, os conflitos, as tragédias humanas, permanecem invisíveis – é como se não existisse gente ali dentro. Desejo que a minissérie contribua para fortalecer projetos que preservem a floresta sem esquecer os homens que vivem na e da floresta, e que desde sempre a souberam manejar sem destruir.

    Você escreveu já pensando na escalação do elenco?

    Não. Pensava nos tipos humanos, nos dramas, nas experiências que vivi e vi viver nos meus tempos de Acre. Foi um resgate da memória. Um mergulho profundo nas raízes.

    Como você estabeleceu a ligação dos personagens históricos e de ficção?

    As personagens de ficção conduzem a história, são o elo entre as três fases da trama. As personagens históricas fazem o pano de fundo. Só tomam o primeiro plano quando é preciso.

    Onde você buscou as informações e referências?

    Nos livros históricos, especialmente “Formação Histórica do Acre”, de Leandro Tocantins, que é a obra mais completa sobre o assunto. Diversas biografias de Plácido de Castro, incluindo as anotações de campanha, escritas por ele mesmo e publicadas por seu irmão Genesco de Castro, e obras de historiadores bolivianos. Com a divulgação da iniciativa de fazer a minissérie, recebemos muitas contribuições de pesquisadores e descendentes de participantes da revolução, que nos mandaram fotografias e documentos inéditos. Pesquisei também autobiografias e livros que relatam a experiência de diversas pessoas da região. Fiz entrevistas e mantenho conversa com várias personalidades locais, escritores, pesquisadores, seringueiros, índios, soldados da borracha, amigos e familiares de personagens citadas na minissérie. Por isso, costumo dizer que essa história está sendo escrita, de certa forma, por todos os acreanos. Estão todos empenhados em participar, em contribuir. É bonito isso.

    Como os romances O Seringal, escrito por seu pai, Miguel Jerônymo Ferrante, e Terra Caída, de José Potyguara, participam da trama?

    Misturei algumas das tramas e personagens dos dois romances para contar a segunda fase da história, a época do segundo apogeu e decadência dos seringais. O Seringal e Terra Caída são dois dos romances mais importantes da literatura acreana, dois retratos exatos e vigorosos do funcionamento dos seringais. Achei que seria a oportunidade de divulgá-los.

    Como é a relação com o tempo, já que a trama começa no final do século XIX, mas tem discussões atuais?

    Ali, no século XIX, a discussão é mais do que atual – já estamos falando sobre o que fazer com a floresta amazônica! O assunto continua em pauta: temos até quem discuta ainda a legitimidade da posse do Brasil sobre a floresta.

     Você usou suas memórias na construção da série…

     O tempo inteiro. Você tem uma visão de mundo diferente quando vive numa clareira no meio de uma floresta, dependendo da cheia e da seca dos rios para receber toda a sorte de gêneros: alimento, vestuário, livros, remédios, enfim, tudo! E numa época em que não havia chegado lá a televisão nem o telefone. De modo que essa vivência, esse ponto de vista, está presente em toda a minissérie.

in Jornal da Paraíba

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