cineastatizuka20.jpgA transformação da indiazinha Zeneida em pajé da tribo Caruana – dos 11 aos 17 anos – e a relação mística dos índios com a natureza, vital para a sobrevivência, serão os temas centrais do filme Amazônia Caruana da cineasta Tizuka Yamasaki, que começa a rodar no final de outubro.É um longa metragem que será rodado na Ilha do Marajó, no Pará, e que levará para as telas, além de grandes nomes nacionais, atores e atrizes da região. Entusiasmada, a cineasta diz que vai mostrar a beleza da natureza amazônica e também o talento e a beleza do povo.

Ela analisa que será preciso vencer os riscos de filmar usando luz natural, enfrentar a inconstância do clima – chuva, sol, calor, maré baixa, maré alta, mas que será uma oportunidade de mostrar ao mundo, os efeitos da ação do homem sobre a natureza e a necessidade de respeitá-la.

Urbana, nascida no Rio Grande do Sul, Tizuka assustou-se com a exuberância da floresta amazônica e mais ainda com a afinidade que surgiu entre ela e a personagem principal do filme – a hoje pajé Zeneida Lima, poeta, escritora que registrou para o mundo O Mundo Místico dos Caruanas da Ilha do Marajó.


in Agência Amazônica

Entrevista de Tizuka Yamasaki– in O Liberal

A cineasta gaúcha Tizuka Yamazaki, 56 anos, entende que para defender a floresta amazônica é preciso conhecê-la. Por isso pretende concretizar o projeto que vai contar a vida da pajé paraense Zeneida Lima de Araújo, 71 anos, no filme “Ave Caruana”, com base no livro “O Mundo Místico dos Caruanas da Ilha do Marajó” (*), escrito por Zeneida.Grande nome do Festival de Gramado no ano passado, quando levou quatro prêmios pelo filme “Gaijin – Ama-me como Sou” (melhor direção, filme, atriz coadjuvante e música), Tizuka esteve na semana passada no Marajó e em Belém, onde participou de uma reunião com cineastas, produtores e críticos paraenses, como Luzia Miranda Álvarez, Caíto Martins, Jorane Castro e Emanoel Freitas, no Belém Hilton Hotel. A cineasta obteve a sinalização do governo do Estado e da prefeitura de Belém para a infra-estrutura necessária ao filme. Confira, a seguir, a entrevista concedida ao Cartaz:

Qual o motivo da vinda a Belém?
Há anos venho propondo a realização do filme “Ave Caruana”, sobre a história da pajé Zeneida Lima, num contexto de meio ambiente. Esse filme será rodado em Belém, no Pará, na Ilha do Marajó, especificamente. É uma história da Ilha do Marajó, mas que também se estende a Belém. O personagem protagonista é Zeneida criança e numa outra fase adulta.

O que lhe atrai na história de Zeneida?
Ela é a mais significativa representante da cultura cabocla. Eu acho que a cultura cabocla no Brasil ainda é segregada pela cultura de elite, e a minha tarefa como cineasta é valorizar os elementos culturais, a cultura que não tem o seu devido lugar no respeito da sociedade brasileira.É algo diferente do que você fez em “Gaijin”, que abordou a cultura oriental?
Não. É a mesma coisa. “Gaijin” falava de imigrantes. Na época em que fui fazer o primeiro filme, disseram que histórias de imigração não rendiam um filme. Mas é mentira. O imigrante merece todo o nosso respeito. Eu o coloquei num patamar merecido, entendeu? Isso não aconteceu apenas com os imigrantes japoneses, mas com todos os outros imigrantes. Hoje se olha o imigrante com respeito.

E a partir da história de Zeneida a cultura cabocla será tratada com respeito?
Claro. A gente tem que ter essa atenção, isso faz parte da história do Brasil. Por que temos que ter vergonha da nossa miscigenação? Os caruanas são uma leitura nova e diferenciada da construção do universo, da construção do mundo, do olhar ao nosso redor. Então, o olhar, sob a ótica de um caboclo, que vem com essa cultura toda, que tem um outro mito de construção do mundo, que tem um respeito pela natureza, é extremamente importante. Caruanas são energias. São onze caruanas que, digamos assim, zelam, protegem a natureza.A cultura cabocla, antes de mais nada, revela o que a natureza tem de mais rico. Você só pode defender a floresta amazônica se você gosta dela. Para gostar, você precisa conhecer. Então, eu quero através da Zeneida, conhecer esse assunto. Eu acho que a população também. Existe o lado científico da coisa, mas vou mostrar nesse filme o lado místico da floresta, que acho extremamente importante.Carreira
A gaúcha Tizuka Yamasaki começou sua trajetória no cinema como assistente de direção no filme “O Amuleto de Ogum” (1974). Com seu primeiro trabalho solo, “Gaijin – Os Caminhos da Liberdade” (1980), que mostra a saga do processo de adaptação dos imigrantes japoneses no Brasil, ganhou vários prêmios, entre eles, o de melhor filme nos festivais de Havana e Nova Délhi, cinco Kikitos de Ouro no Festival de Gramado e menção honrosa em Cannes, o mais importante festival de cinema do mundo.

Depois, filmou “Parahyba, Mulher-Macho” (1983), “Patriamada” (1984), “Fica Comigo” (1998) e, no período de entressafra do cinema nacional, se enveredou para a televisão, dirigindo séries e novelas como “Kananga do Japão” (1989), sucesso na extinta TV Manchete, e a versão para a telinha de “O Pagador de Promessas” (1988), da TV Globo. Durante os anos 90 e 2000, dirigiu os filmes infantis “Lua de Cristal” (1990), “O Noviço Rebelde” (1997), “Xuxa Requebra” (1999) e “Xuxa Popstar” (2000). Em 2005, lançou a continuação de “Gaijin”, intitulado “Ama-me Como Sou”, que levou quatro Kikitos de Ouro no Festival de Gramado.

Depoimento em video gravado para a TV Senado: AQUI

zeneidalima.jpgEm sua casa, em Soure, no Marajó, Zeneida Lima conta que conhece Tizuka Yamazaki desde 1999, após o livro “O Mundo Místico dos Caruanas da Ilha do Marajó” ter-se tornado o enredo “Pará – O Mundo Místico dos Caruanas, nas Águas de Patu-Anú”, da escola de samba carioca Beija Flor de Nilópolis.

Com esse enredo, em 1998, a agremiação dividiu o título de campeã do Carnaval do Rio de Janeiro com a Estação Primeira de Mangueira, que naquele homenageou o compositor Chico Buarque.

No livro, que serve de base para “Ave Caruana”, está a vida e a função desenvolvida por Zeneida Lima como pajé cabocla. “Quando acabaram os índios do Marajó, a cultura deles, incluindo a pajelança, foi repassada aos caboclos. Eu fui sentada pajé aos onze anos de idade, quer dizer, fui feita pajé pelo mestre Mundico de Maruacá, do município de Salvaterra”.

Zeneida Lima que, além de trabalhar com o tratamento espiritual por meio dos bons espíritos da floresta ou caruanas, mantém uma ONG batizada de Instituição Caruanas do Marajó Cultura e Ecologia, que cuida da educação fundamental de 340 crianças do Soure, um dos 16 municípios que formam o arquipélago da Ilha de Marajó.

Zeneida explica que a pajelança cabocla é uma forma de amor à natureza. “É a cura para doenças, através de ervas, sementes, flores e raízes”. Ela conta que na Amazônia existem muitos pajés. Para se tornar um deles, Zeneida passou dois anos estudando. “Não é um milagre, não é só fazer um chá. Ele tem que estar dosado. Doenças como a tuberculose, lepra e câncer têm que ser tratadas com a pajelança logo no início, se não não adianta, e tem que passar para o médico”.

Com o ginásio completo, Zeneida Lima pretendia ser advogada, como o pai Angelino Rodrigues de Lima. Mas seguiu a função de pajé. “No processo de cura é muito importante o estado emocional da pessoa. Às vezes a pessoa cria doenças a partir do sistema nervoso, e aí se tem que fazer com que ela perca essa idéia fixa”.Ela não esconde a alegria de contribuir para divulgação da cultura paraense fora das fronteiras do Estado. “Eu me sinto muito feliz de mais uma vez contribuir para elevar o nome do Pará”. Com quatro filhos biológicos, seis adotados no Rio de Janeiro e três netos, Zeneida enfatiza que a cultura cabocla “não é estrangeira, não é importada”. “A nossa cultura é dos índios. Todos os índios praticam a pajelança. Eu trabalho com a pajelança do Marajó, que é baseada nas energias provindas das águas (os caruanas)”.

Zeneida informou que nas conversas com Tizuka e equipe foi confirmada a presença dos atores Dira Paes e José Wilker no elenco do filme, além da atriz Sônia Braga.

in O Liberal

(*) Lima, Zeneida.
O mundo místico dos caruanas da Ilha do Marajó
Belém, Pará : Edições CEJUP, [2002]
Perkins 981.1500498 L732, M965, 2002