entrevista_01.jpg Dom Erwin Krautler, Bispo do Xingu, é ameaçado de morte por ser contra hidrelétrica, lutar pela preservação da Amazônia e defender os direitos humanos.

publicado na edição de 13 de Setembro de 2006 
por Francisco Alves Filho

Não é de hoje que o bispo do Xingu, dom Erwin Krautler, pode ser tratado como um novo Chico Mendes, o seringueiro que enfrentou o latifúndio na Amazônia e acabou assassinado. Ele efetivamente conhece os perigos de lutar contra os poderosos da Amazônia. Em 1987, na militância em favor dos povos que vivem em torno da rodovia Transamazônica, o carro em que viajava foi abalroado por um caminhão. O padre que estava a seu lado morreu e dom Erwin ficou seis semanas hospitalizado. Pouco depois da colisão, um dos ocupantes do caminhão lamentou: “Matamos o errado.” O episódio não foi esclarecido pela polícia até hoje. Mas, naquele momento, o religioso aprendeu que naquele pedaço de Brasil ameaças contra ativistas costumam ser consumadas. Foi o que aconteceu em 2001 com Ademir Alfeu Federicci, o Dema, coordenador do Movimento Pelo Desenvolvimento da Transamazônica e Xingu, assassinado em casa com um tiro na boca, e com a missionária Dorothy Stang, morta a tiros por sua luta contra os madeireiros da região. Agora, o bispo do Xingu volta a ser alvo de ameaças, graças à sua mobilização contra a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte. O bispo, de 67 anos, nasceu na Áustria, se naturalizou brasileiro e vive há 41 anos em Altamira. São tantas as causas que defende que é difícil identificar de onde partem as ameaças. Dom Erwin luta contra a devastação da mata, contra a prostituição infantil e pela prisão dos mandantes do assassinato de Dorothy Stang. Apesar dos riscos, não usa escolta policial e disse, em entrevista a ISTOÉ, não ter medo de morrer.

ISTOÉ – Como chegam as ameaças?
Dom Erwin Krautler –
Verbalmente. No entanto, não são ditas na minha cara. Eu tenho pessoas de alta confiança que me passaram o aviso. Fontes que não posso dar os nomes me disseram que esse risco estaria ligado a essa mobilização em torno da usina Belo Monte. Numa roda de conversa chegou a ser dito: “A situação está muito ruim, temos que matar esse bispo.” Outra foi: “O bispo está atrapalhando muita gente. Tem que fazer com ele o mesmo que se fez com a Dorothy.” No dia 19 de junho, em uma manifestação feita aqui em Altamira, teve quem falasse com todas as letras: “É guerra, temos que descer o cacete.” Já sei o que significa isso.

ISTOÉ – O sr. tem medo, reforçou sua segurança?
Dom Erwin –
Medo não é a palavra correta. Digamos que a gente não se sente muito bem nesse contexto. Recebi proteção pessoal durante algumas semanas, mas isso na minha função de bispo é impensável. Numa comunidade, o pessoal está acostumado a receber o bispo com alegria, com abraços e beijos. De repente eu chego com dois soldados? Isso é absurdo! Não tem jeito, eu tenho que enfrentar isso. Tenho fé em Deus.

ISTOÉ – O clima de insegurança permanece o mesmo da época do
assassinato de Dorothy Stang?
Dom Erwin –
Para mim, o caso do assassinato da irmã Dorothy Stang não está encerrado, mesmo sabendo que já estão presos e condenados o executor, o seu comparsa e o intermediário. O fato de um dos mandantes (Regivaldo Pereira Galvão, empresário e fazendeiro) estar em liberdade nos causou surpresa. A argumentação do próprio relator do Supremo Tribunal Federal, ministro César Peluzo, de que não se pode levar em conta a “sede de vingança coletiva” nos deixou perplexos. Nunca passou pela cabeça dos que defendem os direitos humanos a idéia de vingança.

ISTOÉ – Que problemas ambientais envolvem a hidrelétrica de Belo Monte?
Dom Erwin –
Não se conta a verdade. Só se fala das grandes vantagens
financeiras. Não se fala do real alcance do projeto. Até hoje em Altamira ninguém sabe até onde vai a inundação da cidade. Além disso, tenho opiniões de cientistas de renome como Oswaldo Sevá, da Unicamp, de que a usina não fará sentido se ficar em apenas uma unidade hidrelétrica. Precisa ter mais barragens porque o rio Xingu não tem condições de fazer funcionar o número de turbinas previstas quando estiver na época de seca.

ISTOÉ – Isso significa ampliar o projeto?
Dom Erwin –
Sim, e significa também que as áreas indígenas serão inundadas; que não se ouve o povo ribeirinho. Ao longo do rio Xingu há muitas áreas indígenas, inclusive demarcadas. Isso afeta a Constituição, não se pode inundar essas áreas.

ISTOÉ – Qual a forma mais racional de explorar economicamente o Xingu?
Dom Erwin –
Eu diria que o Xingu é o último pedaço de paraíso que existe no Brasil. É a coisa mais linda que se possa imaginar. Por que não aproveitamos essa área para outras finalidades, para atrair pessoas que queiram visitar essa natureza exuberante? Com essa hidrelétrica, o Xingu vai acabar. No meio do rio tem uma ilha que vai desaparecer. O que vai sobrar é o esqueleto de algumas árvores. É um absurdo. Do ponto de vista ecológico, essa área merece a atenção do governo, de todas as forças políticas, para salvar uma região tão linda que Deus fez aqui.

ISTOÉ – O presidente Lula já anunciou que se for reeleito vai construir a usina.
Dom Erwin –
Eu não concordo. Não sei se isso é apenas uma expressão de época de campanha. Mas não é tão fácil fazer isso. O presidente também está sujeito à Constituição, ele não está acima dela. Tem que respeitar os trâmites. Espero que ele não passe por cima de todas as preocupações deste povo que está aqui como se fosse um rolo compressor. Há que se levar em conta muitos fatores, o povo tem direito de se manifestar e de ser ouvido.

ISTOÉ – Qual é a situação da região após o assassinato de Dorothy Stang?
Dom Erwin –
O Estado ainda continua ausente. O bispo tem que levantar a voz
em defesa da reforma agrária, em defesa da própria Amazônia contra a pilhagem, contra o saque, contra a devastação inescrupulosa. Nós estamos do mesmo jeito. Falta os organismos governamentais cumprirem sua função. Se o Incra funcionasse, se o Ibama funcionasse, eu não precisaria gritar. Onde o Estado está presente,
o bispo não precisa denunciar fatos horripilantes de agressão à natureza, de agressão à Amazônia.

ISTOÉ – A devastação continua?
Dom Erwin –
Continua. Modéstia à parte, sei do que estou falando. Conheço essa região do Xingu como a palma da minha mão. Sei o que aconteceu nos últimos 40 anos. Conheci o Xingu dos anos 60. No alto Xingu há um município em que apenas 11% da superfície natural ficou em pé; o resto está literalmente pelado. É Tucumã. Me dói no coração andar o dia inteiro comendo poeira sem um só pedacinho de chão onde possamos gozar de uma sombra. No lugar das árvores há uma vegetação rasteira e grande parte dessas áreas está abandonada. Há placas dizendo “vendem-se 1.000 hectares”, “vendem-se 600 hectares”, e por aí vai. É terra que está virando estepe, virando savana. Será que é isso que queremos para a Amazônia?

ISTOÉ – O que dizem os políticos?
Dom Erwin –
Políticos não conhecem a região, conhecem os palanques. Eu conheço e desafio qualquer um deles. Mas eles vêm aqui apenas para gritar contra o bispo, para dizer que quero “engessar” a Amazônia. Desde que estou aqui eu luto pelo progresso e desenvolvimento dessa região. Mas eu coloco no centro de todo o progresso e desenvolvimento a pessoa humana, os povos indígenas, os povos ribeirinhos, os colonos, que lutam desesperadamente pela sobrevivência.

ISTOÉ – Uma de suas denúncias diz respeito à prostituição infantil.
Dom Erwin –
Houve um caso que veio à tona uns meses atrás, mas já estava rolando há muito tempo aqui. Quem descobriu foi o Conselho Tutelar e depois o Comitê de Defesa da Criança Altamirense e a Associação das Mulheres de Altamira. Nós lutamos juntos para denunciar esses fatos. Mas os responsáveis por esses abusos sexuais até hoje estão foragidos.

ISTOÉ – São pessoas com poder?
Dom Erwin –
São pessoas poderosas, são da alta sociedade. Esse é um dos motivos pelos quais sou ameaçado: eles não admitem que eu os tenha “dedurado”, como diz o povo. Eu denunciei, me manifestei diante do Poder Público. As investigações foram feitas, mas os chefes da quadrilha, os mais importantes, continuam foragidos. Há entre eles um médico que era vereador, e por aí vai.

ISTOÉ – A Justiça é o ponto fraco?
Dom Erwin –
Eu defendi e continuo defendendo muito as crianças. Principalmente no caso dos meninos emasculados de Altamira. Entre 1989 e 1994, 20 meninos foram molestados e tiveram seus órgãos genitais retirados. Alguns ainda continuam vivos, outros foram barbaramente trucidados, seviciados. Acompanhei a apuração dessa crueldade, conheço as pessoas, conheço as famílias. As crianças foram entregues num estado horripilante que ninguém pode imaginar. Quando viram as fotos, algumas pessoas tiveram náuseas. Finalmente, eu assisti em 2003, em Belém, à condenação dos responsáveis: dois médicos, o filho de um comerciante e um ex-PM. A sentença deles foi de 35 a 77 anos de reclusão. Não entendemos até hoje como a acusada de ser a mentora do crime foi absolvida.

ISTOÉ – Mas eles estão presos?
Dom Erwin –
Os médicos estão soltos, o filho do comerciante está solto e o PM está em estado terminal de câncer. De que adianta ficarmos de pé, ouvindo a sentença proclamada pelo juiz, se hoje todos estão em liberdade, palitando os dentes em qualquer esquina do Brasil? É por isso que o povo aqui diz assim: “Para nós não existe Justiça porque somos pobres.”

ISTOÉ – Qual sua avaliação sobre o trabalho
das autoridades nas execuções contra ativistas como o sr. no Pará?
Dom Erwin –
No caso de Dorothy fizeram um trabalho muito rápido. Houve pressão da opinião pública, mas não tiro o mérito de nossa polícia aqui do Pará. Eles conseguiram localizar e prender os acusados. O problema é que a polícia prende e depois o STF solta. Não entendo mais nada.

ISTOÉ – Diante de tantas dificuldades, o que o mantém motivado a lutar?
Dom Erwin –
Acredito na vitória do bom senso. Para mim, a vitória nesse contexto é a organização da sociedade civil. A participação dessas mulheres e desses homens que não compactuam com isso e se fazem ouvir pelos quatro ventos. Antes, nem poderia imaginar isso. Mas hoje em dia há pessoas assim. Existe gente que ama este país e ama o Xingu. Esse outro pessoal que está a favor dos saques e da destruição não pensa em seus filhos e netos. Faz de conta que são os últimos. “Depois de nós, o dilúvio”, não interessa.

ISTOÉ – Há algum modelo promissor de atividade econômica na região?
Dom Erwin –
As reservas extrativistas foram implantadas aqui no Xingu e esse projeto está andando. Queremos mostrar o que o Pará e a Amazônia têm. Queremos mostrar o futuro, o desenvolvimento sustentável. Não aquela ânsia de derrubar, de saquear, de acabar com a Amazônia. Esperamos que os governos nos ajudem. Temos que prestar esse serviço ao Brasil.

ISTOÉ – O sr. defende preservar a Amazônia de modo intacto?
Dom Erwin –
Não, porque isso é absurdo. Nada de colocar a Amazônia debaixo de uma redoma. Buscamos o equilíbrio. A Amazônia é um presente de Deus para nós cuidarmos e também para as futuras gerações.

in revista Isto É