Na língua dos índios xipaia não há uma palavra para designar ‘ano’. Essa unidade de tempo não existe na cultura da tribo. Por causa disso, Maria Xipáya nem sabe quantos anos tem. Na carteira de identidade que ganhou da Funai, a data de nascimento é 19 de abril de 1928. (Quando não se sabe o dia do aniversário, é padrão na entidade atribuir uma data aproximada. No caso dela, o Dia do Índio.) Maria mora numa casa localizada num bairro simples da cidade paraense de Altamira. Ela é a última falante viva de um idioma que está morrendo. Não tem ninguém com quem conversar em sua língua materna. Os demais xipaias já esqueceram boa parte do idioma.

‘Quando eu morrer, morre comigo um certo modo de ver’, escreveu o poeta Carlos Drummond de Andrade em um de seus poemas mais famosos, ‘Desfile’. A frase, válida para seres humanos, serve também para idiomas. Quando morre uma língua, grande parte da cultura associada a ela desaparece. ‘Cada língua é uma cultura e uma visão de mundo’, diz Aryon Dall’Igna Rodrigues, coordenador do laboratório de Línguas Indígenas da Universidade de Brasília (UnB) e um dos maiores especialistas brasileiros no assunto. Não é à toa que, em grego, uma mesma palavra – logos – significa linguagem e pensamento.

As línguas costumam morrer em silêncio. O principal sinal de envelhecimento é deixarem de ser ensinadas às novas gerações. Quando isso acontece, o final é quase irreversível. ‘Qualquer língua que não seja mais transmitida às crianças está em situação crítica’, diz Aryon Rodrigues. Antropólogos e lingüistas acreditam que, se nada for feito, algo entre 50% e 90% das cerca de 6 mil línguas faladas no planeta vão desaparecer neste século. Quando Cabral chegou ao Brasil, a população de índios era de 6 milhões a 10 milhões segundo estimativas. Hoje, calcula-se que são 170 mil. Em 1500, os índios falavam cerca de 1.300 línguas. Sobraram 181.

As línguas deixam de ser usadas quando seus falantes não precisam mais dela. Quem impede o desaparecimento completo de uma língua salva toda uma cultura e uma visão de mundo. s Os esquimós usam palavras diferentes para se referir a tonalidades de branco imperceptíveis para quem não vive na região Ártica. Se eles desaparecessem, essa diversidade cultural também sumiria. Por isso, um idioma salvo da extinção é motivo para comemorar.

No Brasil, salvar idiomas é especialmente importante dada a biodiversidade lingüística do país. Enquanto na Austrália os 200 idiomas indígenas catalogados são todos variações de uma única família, por aqui há várias famílias independentes. A maior parte delas pertence a dois troncos principais, o tupi e o macro-jê. A língua xipaia pertence ao tronco tupi.

LEGADO INCOMPLETO
Maria é a última de sua tribo a falar a língua xipaia; seus bisnetos só sabem falar português

Os xipaias deixaram de utilizar seu idioma quando abandonaram a tribo para viver na cidade. Recentemente, a Funai demarcou as terras dos xipaias e alguns deles voltaram a morar no mato. A aldeia fica a dez dias de barco de Altamira. Para lá seguiram 36 índios da etnia, nenhum deles com fluência no idioma nativo.

Alguns lembram de uma palavra ou outra, como os parentes mais próximos de Maria. Duas de suas primas, Izabel e Odete, se recordam de algumas frases em xipaia. Um amigo, João, conhece nomes de bichos e plantas na floresta. Mas isso seria insuficiente para manter um diálogo, caso eles se encontrassem com freqüência. Como são idosos, os quatro dificilmente saem de casa e se vêem pouco. Os filhos, netos e bisnetos de Maria não falam o idioma ancestral.

Embora seja difícil impedir a morte de uma língua, é possível evitar sua extinção. O latim é uma língua morta, pois não é mais falado. Mas não está extinto. Restam textos latinos que ainda são estudados e preservam a cultura que deu origem a vários idiomas vivos. Da mesma forma, o xipaia pode morrer, mas não será extinto. Desde 1988, a professora de Lingüística da Universidade Federal do Pará (UFPA) Carmen Lúcia Reis Rodrigues trabalha ao lado de Maria Xipáya. Ela registra o vocabulário, presta atenção a nuances fonéticas, tenta entender as regras gramaticais e está criando uma ortografia para o idioma. Ainda neste ano, Carmen pretende finalizar um dicionário. O xipaia era dado como extinto até os anos 80. Foi quando Carmen, então estagiária do Museu Paraense Emílio Goeldi, e o lingüista americano Denys Moore descobriram Maria e viram uma oportunidade de salvar o idioma de seus ancestrais.

O nome xipaia aparece em relatos dos primeiros missionários e viajantes que chegaram à região dos rios Xingu, Iriri e Curuá, no Pará, no século XVII. Em 2002, eram apenas 595 pessoas. A família de Maria parece pertencer a um grupo que se manteve relativamente afastado dos costumes dos brancos. Ela afirma que, até o dia s de seu primeiro casamento, jamais tinha entrado numa igreja e que, até então, não era batizada. O tio de Maria, Durica, era o pajé da tribo. Sua filha, Izabel, prima de Maria, afirma que costumava vê-lo incorporando espíritos e fazendo suas curas. Uma vez Maria diz que passava muito mal do estômago. O pajé foi chamado e disse que ela tinha ingerido a comida de uma panela que ficara aberta durante a noite. ‘O bicho da escuridão tinha cuspido lá dentro’, diz ela. Ela afirma que, depois das rezas e dos remédios do tio, ficou boa.

Na época do Ciclo da Borracha, no século XIX, e durante a Segunda Guerra Mundial, os seringueiros usaram os xipaias e os curuaias, outra tribo da região, como guardas dos assentamentos de seringueiros na selva. Foi aí que começou o contato com a cultura dos brancos. Quando criança, Maria diz que se fascinava com o modo de vida dos que falavam português: ‘Eu achava bonito. Aquelas roupas limpinhas, branquinhas, tudo arrumado. As meninas me chamavam para ajudar a lavar roupa. Eu adorava. Queria que minha mãe fosse como a mãe delas, que não comesse na folha de bananeira e depois jogasse no meio do mato’.

O chamado da civilização parecia irresistível. Depois da folha de bananeira, a jovem Maria foi, aos poucos, desprezando os trajes tradicionais, as pinturas indígenas, as danças e, por fim, o próprio idioma. Quando seus filhos nasceram, ela não se preocupou em passar a língua do pai ou da mãe para eles. Hoje se diz arrependida e se esforça ao máximo para alimentar a pesquisadora com dados sobre o idioma xipaia.

Sempre que Carmen Rodrigues consegue se deslocar de Belém a Altamira, o que não é tão freqüente, Maria passa as tardes com ela gravando histórias, identificando palavras, repassando textos, lembrando de canções de sua aldeia. À noite, quando tudo se aquieta, ela diz lutar para recapturar as palavras de mitos narrados pelo pai, as letras de músicas cantadas em torno do fogo, um diálogo qualquer perdido na memória.

Salvar uma língua indígena da extinção é um desafio complexo. É necessário estabelecer uma ortografia para ela, já que esses idiomas são orais. É desejável também que se estude a língua antes de ela ir para a UTI, reduzida a poucos falantes. Carmen Rodrigues, além do xipaia, pretende estabelecer uma ortografia para outro idioma, o araueté.

Os arauetés vivem no igarapé Ipixuna, à margem Rio Xingu, no Pará. Para chegar à aldeia, são oito horas de barco com motor de popa a partir de Altamira, a cidade mais próxima. Os pouco mais de 350 moradores da aldeia mantida pela Funai mantêm sua língua e boa parte de sua cultura preservadas. Ainda vivem da pesca, da caça, da fabricação de farinha de mandioca, da extração da castanha. As mulheres tecem suas saias e andam com os seios nus. Em noites de lua cheia, o povo dança e canta em torno do fogo. O pajé trata de picadas de cobra e problemas no joelho. De madrugada, pode-se ouvi-lo cantar. As famílias ainda comem em torno do fogo, sentadas na esteira.

Também se notam as primeiras marcas do contato com os brancos. Além de peixe e porco-do-mato, os arauetés hoje comem muito açúcar. Os homens não andam mais nus. Vestem short e camiseta. As filas do posto médico instalado na aldeia mostram que a fé no pajé já não é tão grande. A televisão, a que muitos assistem deitados no chão de terra, já é um dos lazeres principais da comunidade. ‘Não queremos perder nossa cultura e nossa língua’, diz o cacique Tatuavim. Mas, como Maria na juventude, alguns arauetés mais novos têm dificuldade de entender que dá para conciliar o português com a língua ancestral. ‘Quando a gente começa com o português, vai esquecendo o araueté. O importante é o português’, diz Ravutiré, de 16 anos. Ele é um dos informantes de Carmen Rodrigues em seu projeto.

Não se pode impor a qualquer grupo indígena a obrigação de manter sua cultura ou sua língua. ‘Em geral, s não é uma questão de escolha’, diz a antropóloga. Além de tentar documentar as línguas para que não se perca a imensa riqueza cultural que elas representam, é possível dar condições econômicas e culturais para que esses povos decidam o que querem manter intocado e o que querem aproveitar de nossa cultura. O caminho, como em outras questões brasileiras, passa pela educação.

HOJE COMO SEMPRE
As mulheres arauetés são mais tradicionais que os homens. Em qualquer situação, vestem-se apenas com as saias de algodão que elas mesmas tecem e tingem

A Constituição de 1988 determina o ensino bilíngüe nas escolas de áreas indígenas brasileiras. Isso só é possível se os lingüistas conseguirem estabelecer as ortografias dos idiomas. Há muitos em campo atualmente no Brasil. Centros como o Museu Goeldi, a Universidade de Brasília, a Universidade Federal do Pará e a Unicamp desenvolvem trabalhos de pesquisa por todo o território nacional. Mas há mais línguas que lingüistas especializados. O espaço acaba sendo ocupado por missionários religiosos. Eles carregam a tradição, primeiro católica, depois evangélica, de estudar os idiomas indígenas para então transmitir as palavras da Bíblia aos infiéis. ‘Alguns missionários são muito competentes’, diz Aryon Rodrigues. ‘Mas o objetivo deles em geral é apenas traduzir a Bíblia.’

A língua portuguesa, que passa na TV, toca no rádio e aparece por meio da internet, é mais atraente para esses jovens. Para compensar um pouco dessa influência, o laboratório de lingüística do Museu Goeldi resolveu atacar com a mesma arma: a tecnologia. A instituição grava DVDs com danças, produz material audiovisual sobre os métodos de caça e distribui CDs com músicas tradicionais. Parece funcionar. ‘Eles ouvem, ouvem e ouvem’, diz o lingüista Danny Moore. ‘Os ticunas, por exemplo, já nos pediram para gravar CDs para seus filhos pequenos escutarem.’

No passado, predominava entre os antropólogos uma visão paternalista, segundo a qual o contato entre os índios e os brancos era sempre danoso para as suas culturas. Hoje se admite que aprender a língua oficial do país – o português – é não só inevitável, como também desejável. O caminho, segundo os especialistas, é despertar nos índios o desejo de valorizar também a própria cultura. E iniciativas como a do Museu Goeldi são um passo decisivo nessa direção.

RARIDADE
O Brasil tinha 34 línguas indígenas com até 50 pessoas falantes em 2004, segundo levantamento do lingüista Aryon Rodrigues, do Laboratório de Línguas Indígenas da UnB

• AMEAÇADAS
Dessas línguas, 24 estão em situação crítica porque são mantidas por menos de 21 falantes

• IDADE
Das línguas indígenas brasileiras, 30 são faladas apenas por populações idosas, segundo o Ethnologue, o principal catálogo de línguas do mundo

Publicado em 19/08/2006 na Revista Época