publicado em 08/06/2007

Marcílio de Freitas
Diretor do Centro de Estudos Superiores do Trópico Úmido da Universidade do Estado do Amazonas; mafreitas@uea.edu.br

As representações simbólicas e materiais que movimentam o processo de produção e reprodução da vida no Estado do Amazonas constituem uma referência emblemática para o Brasil e o mundo.

Destaque para suas características sócio-ecológicas: formado por 62 municípios, é a unidade federativa com a maior reserva florestal do planeta; possui uma área territorial de cerca de 1.500.000 km2 (150.000.000 hectares); cerca de 10% de toda reserva florestal dos trópicos úmidos do planeta, distribuída ao longo de mais de 96% desta superfície, com um estoque de biomassa de cerca de 67.500.000.000 toneladas contendo um estoque de carbono equivalente a 33 bilhões e 750 milhões de toneladas (22,5 quilos por m2). Possui ainda: um pouco mais de 3 milhões de habitantes; 67 povos indígenas com culturas próprias; cerca de 25.000 quilômetros de rios navegáveis; e uma rica biodiversidade – em 1997 Antony constatou que os solos do Arquipélago de Anavilhanas – situado no município de Novo Airão – possuem uma população de 116.409 indivíduos numa camada com área superficial de 1m2 e com 10cm de profundidade (Antony, 1997).

As florestas do Estado do Amazonas ocupam um papel relevante no processo de estabilização termodinâmica do planeta, ao retirar anualmente da atmosfera terrestre, no mínimo, uma quantidade total média de carbono de cerca de 150 milhões de toneladas (100 gramas por m2 por ano), contribuindo para o resfriamento da terra e reafirmando a importância deste Estado no processo de minimização dos impactos das variações climáticas do planeta (a fauna que compõe as florestas do Estado do Amazonas retira para efeito fotossintético, por ano, esta quantidade de carbono da atmosfera terrestre transformando-a em madeira, tronco, galhos, raízes e folhas). É importante ressaltar que o carbono retirado da atmosfera terrestre pelas florestas do Amazonas corresponde a cerca de 2% do total do carbono emitido e estocado por ano na atmosfera terrestre; isto é: de cada 100 quilos de carbono que é, efetivamente, estocado anualmente na atmosfera terrestre devido às emissões mundiais, os biomas do Amazonas retiram, anualmente, cerca de 2 quilos.

Antecipando-se aos desdobramentos políticos dos Relatórios do IPCC que projetam um futuro ecológico trágico para o planeta, Eduardo Braga – Governador do Estado do Amazonas – assinou o Decreto No. 26.561 em 25 de abril de 2007, que estabelece uma Política Pública Estadual de Variações Climáticas para este Estado, articulada com uma proposta de desenvolvimento econômico, humano e solidário centrada no paradigma da sustentabilidade e integrada ás culturas regionais. Nesta quinta-feira, 31/05/2007, a Assembléia Legislativa do Estado do Amazonas discute em audiência pública 02 projetos de lei – complementar e ordinária- encaminhados pelo Governador Eduardo Braga e voltados á institucionalização de uma Política Estadual sobre Mudanças Climáticas, Conservação Ambiental e Desenvolvimento Sustentável do Amazonas (Amazonas Em Tempo, p. A8; 31/05/2007).  Com esta iniciativa histórica, o Governador rompe com uma tradição política centenária de se impor e implantar na região modelos econômicos dissociados de nossa realidade sócio-cultural.

Ao propor uma matriz de desenvolvimento concebida na Amazônia e alicerçada na preservação das arquiteturas e das estruturas mecânicas dos biomas amazônicos, e que se materializa através da renumeração ao Amazonas pelos serviços ambientais prestados por estes biomas ao mundo, o Governador cria novas perspectivas econômicas e sociais para a melhoria de qualidade de vida das populações regionais. Seqüestro e crédito de carbono, inventários e manejo-agroflorestal, monitoramento contínuo dos biomas amazônicos; criação e humanização de novas reservas florestais, criação de sistemas de gestão, normatização e certificação dos processos de compensação de gases estufa no Estado; implantação de programas de formação de técnicos especializados em questões ambientais próprias de cada meso-região do Amazonas; desenvolvimento de plataformas de informação e de comunicação centradas na bioeconomia e na educação ambiental, implantação de programas de recuperação de áreas degradadas; mobilização dos atores sociais e econômicos; parceria com um consórcio de universidades e institutos de pesquisa regionais especializados em pesquisas avançadas sobre Amazônia e com experiência acumulada sobre modelamento dos ciclos biogeoquímicos na região; …; e a institucionalização de uma nova matriz ocupacional para o Amazonas, são dimensões técnicas deste importante programa governamental, um exemplo para o Brasil e para o mundo.

Nasce, no Estado do Amazonas, os princípios estruturantes para implantação das futuras plataformas tecnológicas, de natureza ecológica, de serviços ambientais que movimentarão os mega-processos econômicos da Amazônia no mercado mundial e que acelerarão a fusão das tecnologias hytec do Pólo Industrial de Manaus com os produtos e processos bio-florestais, com impactos na matriz produtiva brasileira e com grande conectividade com o mercado internacional.

A ampliação desta iniciativa para toda Amazônia legal é uma possibilidade factível, considerando a potencialidade e as características dessa região. A Amazônia legal é formada pelos estados do Amazonas, Acre, Pará, Amapá, Roraima, Rondônia, Tocantins, Maranhão e Mato Grosso e possui 11.248 quilômetros de fronteiras internacionais com 7 países: Peru, Bolívia, Colômbia, Venezuela, Suriname, Guiana e Guiana Francesa; 3/5 do território brasileiro; um pouco mais de 3/5 da Amazônia pan-americana; 2/5 do continente sul-americano; 1/20 da superfície terrestre; 3/1000 da população mundial; 1/5 da disponibilidade mundial de água doce (Corrêa da Silva, 2001); 50% do potencial hidrelétrico do Brasil; 12 milhões de hectares de várzeas; cerca de 75.000 quilômetros de rios navegáveis; 1/3 da floresta latifoliada mundial; 1/10 da biota universal; 163 povos indígenas que correspondem a 204 mil pessoas (60% dos índios brasileiros); 250 línguas faladas em toda a Amazônia panamericana, das quais 140 na Amazônia brasileira.

A biodiversidade da região impõe a sua presença na geopolítica mundial: A Amazônia possui cerca de 28% das florestas tropicais mundiais; 18 a 20% dos recursos hídricos mundiais, e cerca de 1/3 de toda a biodiversidade do planeta; Em levantamento fitogenético realizado numa área de 100km2 da Reserva Ducke constatou-se a existência de: 1200 espécies de árvores e de 5000 indivíduos, das quais cerca de 300 espécies de árvores com mais de 10cm de Diâmetro a Altura do Peito (DAP) em cada hectare de floresta, valor superior ao número total de espécies existentes em toda a Europa; Antony em 1997 constatou que nos solos do Arquipélago de Anavilhanas, tem-se uma população de 116.409 indivíduos numa camada de 0-10cm de profundidade; No período de 1995-2000, 97% dos registros de patentes feitos no Brasil foram de estrangeiros sobre produtos de biodiversidade; a floresta amazônica possui em torno de 350 toneladas de biomassa por hectare; a floresta de platô amazônica produz cerca de 7,5 toneladas de detritos vegetais por hectare por ano; Dados mais recentes (2004) sobre o inventário da biodiversidade brasileira, comprovam que a Amazônia possui: 427 espécies de anfíbios (o equivalente a 71% do Brasil e a 10% do mundo); 3.000 espécies de peixes (o equivalente a 50% das Américas do Sul e Central e a 23% do mundo); 378 espécies de répteis (o equivalente a 81% do Brasil e a 6% do mundo); 4.000 espécies de plantas superiores com sementes (o equivalente a 93% do Brasil e a 17% do mundo);  427 espécies de mamíferos (o equivalente a 81% do Brasil e a 9% do mundo); 1.294 espécies de aves (o equivalente a 77% do Brasil e a 13% do mundo).

O clima e o desmatamento na região, também, têm impacto global: a energia solar incidente na região amazônica é de 400 calorias/cm2 x s. Entre 80 a 90% desta energia é utilizada para o processo de evapotranspiração e de 10 a 20% para o aquecimento do ar (calor sensível); há dias que a temperatura aumenta de até 30 graus para alturas de 10km acima do solo; na floresta de terra firme o vapor é devido a transpiração (70%) e ao processo de evaporação da chuva interceptada pela cobertura vegetal e pela liteira (30%). Dados do IBAMA demonstram que: até 1970 somente 1% da região tinha sido desmatada; a área desmatada na Amazônia em 1990 foi de 13.800km2; no período de 1998-1999 o desmatamento atingiu  66.610km2, e entre 1970 e 1990 o desmatamento totalizou um percentual de 15% (75 milhões de hectares), área maior que o território francês (551.500km2), ou o alemão (356.910km2) ou o Reino Unido (244.000km2).

Ao contrário de outras regiões da Amazônia e do Brasil, as taxas de desmatamento no Estado do Amazonas são muito menores. No período 1990-2004, o Estado do Amazonas desmatou, em média, 0,05% (860 km2/ano) de seu território ao ano. As projeções médias para a Amazônia brasileira indicam uma taxa 07 vezes superior, 0,35% ao ano (18.184 km2/ano) (Inpe/Prodes, 2005, In: Viana, 2006). Este cenário de preservação ambiental no Amazonas resulta de diversas ações estaduais e federais na região, com destaque às políticas de desenvolvimento econômico e humano assentada no princípio de sustentabilidade econômica, social e ecológica implantada pelo atual Governador deste importante Estado brasileiro. As áreas protegidas deste Estado somam, atualmente, cerca de 78.775.133,107 hectares de florestas do trópico úmido, distribuídas entre unidades de conservação federal, unidades de conservação estadual e terras indígenas, correspondentes a cerca de 52% do território total deste Estado (dados da Secretaria de Desenvolvimento Sustentável do Estado do Amazonas, 2006); áreas que têm se ampliado com a criação de novas reservas estaduais.

É um patrimônio do povo brasileiro que tem exigido alto investimento do Estado do Amazonas para sua conservação e integridade ecológica com inclusão social e geração de renda, e que demanda maior participação financeira do governo federal e de parceiros internacionais envolvidos com a conservação do planeta. Ações que precisam ser incorporadas às políticas públicas do Estado do Amazonas e direcionadas para a melhoria da qualidade de vida das populações regionais em forma sustentável.
O IPCC (2007) afirma que cerca de 20 a 22% (1,0 a 1,2 bilhão de toneladas) das emissões globais efetivas de carbono estocadas na atmosfera terrestre são originadas de queimadas e dos usos do solo. Os especialistas identificam a Amazônia pan-americana, a África central, e o sudeste da Ásia como as regiões que lideram estas emissões; equivocadamente e na mesma proporção de seus interesses, consideram as taxas de desmatamento da Amazônia como cenário de referência para o Estado do Amazonas, confundindo e comprometendo a dinâmica dos processos sócio-econômicos em curso neste Estado.

Desde 2002, o governo deste Estado tem construído inúmeras iniciativas centradas na melhoria de qualidade de vida das populações endógenas e no compromisso com a preservação e conservação ecológica da região. Destaque para as Políticas Florestais nas Unidades de Conservação Públicas e Privadas tendo como foco central: a conservação florestal, os sistemas agroflorestais, as plantações florestais e o manejo florestal. Ênfase para a manutenção da estabilidade dos ciclos biogeoquímicos, em especial o ciclo do carbono (fixação de carbono), ciclo hidrológico (conservação e uso social da água), ciclo do nitrogênio (processos de ciclagem e reciclagem); usos e conservação da biodiversidade e das estruturas mecânicas, arquiteturas e belezas cênicas dos biomas amazônicos. Ações que se encontram articuladas com vários programas de pesquisa centrados em demandas regionais e mundiais, como: populações e ecossistemas e amazônicos, e, física e química e modelagem atmosférica tropical; dinâmica da biomassa vegetal e planejamento da conservação dos ecossistemas; dinâmica e efeitos das mudanças de uso da terra na Amazônia; variações climáticas e emissões de gases traços na Amazônia, tecnologias aplicadas aos trópicos úmidos, e, processos de interação biosfera-atmosfera (Freitas, 2003; Manzi et al., 2006), dentre outros; ampla parcela deles fomentados pela Secretaria de Ciência e Tecnologia do Estado do Amazonas.

Educação superior, ciência e tecnologia têm sido utilizados no Estado do Amazonas, também, para dar concretude técnica e política á noção de sustentabilidade; o governador Eduardo Braga concebe e constrói um projeto político assentado numa revolução científica e tecnológica que incorpora as inovações tecnológicas contemporâneas integrando-as ás complexas características sócio-ecológicas da região e direcionando-o para o bem estar das populações regionais. Saúde, educação, habitação, transporte, …, e economia sustentáveis constituem dimensões deste empreendimento político.

Portanto, a preservação ambiental no Estado do Amazonas constitui um processo construído pelo Estado e seus municípios, principalmente, pela suas populações originárias que secularmente resistiram à implantação dos grandes projetos predatórios na região, empreendimento que assegurou ao Estado do Amazonas a posição de principal sorvedouro terrestre mundial de dióxido de carbono com uma contribuição importante para o resfriamento do planeta. Importância que se reafirma à medida que a matriz industrial deste Estado é de natureza não-poluente, á exceção de sua pequena frota automobilística que conta com pouco mais de 320 mil carros movidos à combustível fóssil em uma malha rodoviária, majoritariamente, restrita aos centros urbanos de seus 62 municípios (dados de 2005, citação in: Proposta da SDS/AM, junho de 2006).

O Pólo Industrial de Manaus (PIM) com mais de 500 indústrias, nacionais e transnacionais, e de abrangência em toda Amazônia ocidental, constitui, atualmente, uma matriz científica e tecnológica sofisticada. Também, de natureza não-poluente, este Pólo gera mais de 105 mil empregos diretos (dados do final de 2005) e encontra-se em pleno processo de expansão física e econômica.

Os principais focos do PIM são as indústrias elétrico-eletrônica, informática, automotora (duas rodas), alimentação e fito-fármacos com uma pauta de exportação que atinge mais de 30 países.

Diversos empreendimentos petroquímicos encontram-se em processo de implantação neste Pólo com impactos na mudança de toda matriz energética da Amazônia ocidental. Destaque especial para os processos de formação, organização, implantação e desenvolvimento de empreendimentos associados à construção de uma matriz biotecnológica acoplada á bioindústria em pleno processo de expansão nesta região.
O faturamento global do PIM superou o montante de US$ 18 bilhões em 2005 (Amazonas em Tempo, 05.01.2006, p. A7), com um crescimento em cerca de 33% em comparação a 2004 quando o faturamento foi de US$ 13,9 bilhões, atingindo pouco mais de US$22 bilhões durante 2006.

O Estado do Amazonas possui atualmente mais de 27 instituições de ensino superior, públicas e privadas, com uma população universitária que ultrapassa 100 mil alunos universitários e em um acelerado processo de institucionalização de programas de pós-graduação. Ações centradas nas características culturais e ecológicas da região e também voltadas para a construção de modelos de desenvolvimento integrados e compatíveis com a importância de sua inserção geopolítica, em âmbito nacional e internacional.

O macro-cenário referente ao desenvolvimento econômico e humano com preservação ambiental do Estado do Amazonas, representa enorme esforço e custo sócio-econômico para as comunidades endógenas e para o poder público; empreendimento que precisa ser compartilhado economicamente entre todos aqueles que usufruem dos benefícios dos serviços ambientais gerados pelos biomas amazônicos, da escala regional à planetária (idem, Proposta da SDS/AM, junho de 2006).

A abrangência deste empreendimento abarca questões do tipo: Como se dará a colaboração internacional no Estado do Amazonas nesta Era de sustentabilidade? Como conciliar a preservação ecológica da Amazônia com os interesses de suas populações? Qual é o grau de importância da Amazônia para os processos ecológicos mundiais? Como operacionalizar estratégias políticas que impeçam que o processo de naturalização dos processos sociais destrua as culturas nativas da Amazônia? Como articular os modelos de desenvolvimento sustentável em curso no Estado do Amazonas com os interesses de um mercado nacional e internacional não-sustentável, tendo como eixo central a melhoria de qualidade de vida de suas populações? Estas são questões complexas de interesse regional, nacional e mundial que precisam ser resolvidas em curto prazo.

A reafirmação técnica pelo IPCC, de tendência de desestabilização ecológica do planeta com conseqüências imprevisíveis no processo de perenização da espécie humana no planeta, põe elementos novos aos fundamentos do processo civilizatório mundial. A conclusão final destes especialistas das ciências da natureza, ao remeterem às soluções do problema de desestabilização termodinâmica do planeta para a instância política coloca novas possibilidades e responsabilidades para os (as): políticos, empresários, cientistas; formuladores e gestores de políticas públicas; matrizes dos processos educacionais, em todos os níveis, do pré-escolar aos estudos avançados; formadores de opinião; e, principalmente, para o cidadão comum.

A questão-central posta pelos especialistas no IPCC resume-se à seguinte indagação: O sistema climático terrestre continua se aquecendo? Quais são as conseqüências sócio-econômicas desta constatação?

Estas são questões que articulam interesses locais e planetários e que se desdobram na necessidade de reinvenção e reconstrução dos modelos de desenvolvimento econômico, alicerçados em outras matrizes industriais e energéticas e comprometidos com um estilo de vida mais solidário e menos consumista.

Estes mesmos especialistas [do IPCC] relatam que, sob o ponto de vista científico, ainda não existem respostas definitivas sobre a taxa de aquecimento terrestre nem sobre o desdobramento deste efeito em nossas vidas durante o século 21; entretanto alertam sobre a gravidade desta questão ecológica que enquanto tendência põe em risco a perenidade da espécie humana no planeta e que envolve mecanismos complexos e decisões de caráter eminentemente políticas. Os registros e os alertas do IPCC constituem uma memória histórica e uma referência emblemática sobre a necessidade e nos modelos de desenvolvimento econômico em curso.

Os processos de modelagem e controle analítico e empírico do IPCC apresentam diversos indicadores de tendência de desestabilização climática do planeta, com destaque para: crescimento do estoque de gases-traço na atmosfera, em especial do dióxido de carbono, do metano e dos óxidos de nitrogênio, intensificando o efeito estufa; a fusão das camadas de neve em superfícies terrestres e do gelo das calotas polares, com o aumento e crescimento do número de lagos glaciais; a elevação dos níveis médios dos oceanos em cerca de 17cm no século 20; e, mudanças nos padrões de vários fenômenos e ciclos da natureza. Enfatizam também as possibilidades reais de variações nos índices pluviométricos, nos graus de salinidade e de acidez (prevê-se uma diminuição de 0,14 a 0,35 unidades no pH) dos oceanos, nas cadeias da flora e da fauna dos oceanos, na intensidade de ciclones e tornados tropicais, nos padrões de vento e de circulação atmosféricas, dentre outras secundárias.

O IPCC ressalta que as projeções analíticas dos modelos meteorológicos indicam que: uma duplicação de concentração de CO2 resultará num, provável, aumento de 3 0C e não menos que 1,5 0C; a eliminação completa da lâmina de gelo da Groelândia resultará numa elevação do nível do mar em 7 metros; o aquecimento planetário tende a reduzir a captura e/ou o seqüestro de CO2 aumentando o estoque deste composto na atmosfera e, portanto, retro-alimentando e agravando o efeito-estufa; possibilidade de aumento de freqüência de eventos climáticos extremos, noites e dias mais quentes e frios; chuvas mais intensas, ciclones e tornados tropicais mais intensos.

As projeções também indicam que a emissão anual de carbono fóssil aumentou de uma média de 6,4 GtC/ano (1 GtC = 1 Giga-tonelada de Carbono = 1 bilhão de toneladas de Carbono)  na década de 1990 para 7,2 GtC/ano no período de 2000-2005, sendo que 97% do CO2 emitido pelos países ocidentais industrializados é proveniente da queima de combustíveis fósseis, para atender as necessidades sociais de 25% da população mundial dessas nações que consume cerca de 80% da energia produzida no planeta (dados da década de 90) e cerca de 86% do consumo privado total do planeta.

E com um agravante: as concentrações de outros gases-estufa crescem rapidamente na atmosfera terrestre. Os principais gases-estufa são o(s): CO2 (CO2 – 50%; queima de combustíveis fósseis), CH4 (CH4 – 15%; processos agrícolas e uso de combustíveis fósseis), vapor de água (10%), ozônio (O3 – 9%), clorofluorcarbonetos (CFCs – 8%; sistemas de refrigeração e de aerossóis – sprays), N2O  (N2O – 6%; mais de 1/3 de todas as emissões é de origem agrícola) dentre outros de menor relevância.

Os registros também mostram que, majoritariamente, as principais fontes primárias de emissões de carbono de distribuem através de: 1) uso de combustíveis fósseis (carvão, gás, gasolina e óleo) – com uma contribuição em cerca de 5,8-6,0 bilhões de toneladas carbono – destinado ao aquecimento residencial e setor de serviços (15%); transporte (27%); energia industrial em geral (57%) e outros (1%); 2) uso da terra (desmatamento, derrubada de florestas, setor agropecuário) com uma contribuição em cerca de 1,2-1,6 bilhão de tonelada de carbono. O IPCC afirma que ainda existe uma grande incerteza nesta última estimativa que corresponde cerca de 20-22% da emissão total de carbono.

Os registros confirmam que os países que mais contribuem para o aquecimento do planeta são: Estados Unidos (27%); Federação Russa (13%); Japão (6,4%); e, Alemanha (5,5 %) (dados de 1999), o que mostra a correlação entre os maiores Produtos Internos Brutos (PIB’s) mundiais e a quantidade de carbono emitido e estocado na atmosfera terrestre,[1] pondo responsabilidades e compromissos diferenciados para esses países.

O IPCC expõe também diversas dificuldades técnicas que contribuem para o grau de incerteza nos experimentos e medidas do ciclo de carbono. Destaque para: observar, avaliar e simular variações climáticas em pequenas escalas, nestas dimensões a variabilidade climática pode ser maior que a provocada por agentes externos, o que dificulta sua identificação e caracterização; dificuldade de precisão analítica e instrumental dificultando as medidas mais sensíveis; dificuldade adicional em construir e projetar taxas de emissões seguras, exatas considerando que estes fatores dependem de políticas públicas e de compromissos políticos nacionais e internacionais; ampliar parcerias interinstitucionais para construir bancos de dados, sistemas de observações e  monitoramento, construir políticas públicas apropriadas, plataformas tecnológicas e redes científicas locais, regionais, nacionais e internacionais; construir estratégias para revitalizar as áreas mais vulneráveis.

Dificuldade também em se construir um diálogo e em se estabelecer mecanismos operacionais focados na estabilização das emissões, com o setor produtivo, em especial com os grupos que controlam o setor energético.

O IPCC reafirma que a vulnerabilidade sócio-econômica futura de um país pode vir a depender dos impactos das variações climáticas, mas depende essencialmente do tipo de desenvolvimento que ele escolher; ele emblematiza o desenvolvimento sustentável reforçando a necessidade de se privilegiar as culturas regionais, o planejamento integrado, o uso da terra e dos ecossistemas integrado às potencialidades regionais e ao conhecimento tradicional, a implantação de mecanismos preventivos às  catástrofes naturais, a implantação de plataformas tecnológicas e cadeias científicas ancoradas em informações que privilegiem as dimensões humanas integradas aos processos da natureza, e o uso de múltiplas fontes energéticas.

Em forma tópica o IPCC sugere, como fator de inibição de emissões, uma drástica valoração dos comodities de carbono (em 2005 a tC foi estimada como valendo US$43 que corresponde a US$12 por tCO2). Estes valores seriam imediatamente elevados para US$350 por tC que corresponde a US$130 por tCO2. Em médio e longo prazo os cenários termodinâmicos projetados pelo IPCC reafirmam a necessidade de se criar uma nova matriz industrial.

Ainda segundo o IPCC, os diversos cenários de emissões de gases-traço previstos pelos modelos meteorológicos possuem várias características comuns, em especial a(o): elevação da temperatura da terra com grandes impactos na sócio-economia mundial, do local ao mundial; crescimento populacional até a metade do século 21, fortalecimento de modelos econômicos focados no desenvolvimento regional e/ou no privilegiamento de processos mundiais; forte incorporação de inovações científicas e tecnológicas aos processos produtivos privilegiando a busca de fontes de energia não-poluentes; construção de políticas de proteção ambiental ancoradas na noção de sustentabilidade sócio-econômica e ecológica; modificação de ciclos vitais para a manutenção da vida, ciclo hidrológico, ciclo de calor; e tendência à intensificação do processo de pauperização do mundo.

O IPCC também discrimina, ainda que em forma muito fragmentada, os cenários virtuais associados aos prováveis impactos do aquecimento planetário nos processos produtivos, nos continentes, nas regiões e nos ecossistemas.

Para uma elevação de temperatura de 1,5 – 2,5 0C prevê-se: a extinção de várias espécies vegetais e animais e modificações estruturantes na arquitetura, estrutura mecânica e dinâmica ecológica dos ecossistemas terrestres; impactos negativos na matriz agrícola regional e mundial afetando a cadeia alimentar, a disponibilidade dos produtos agro-florestais, a geografia e a dinâmica sócio-econômica das regiões localizadas nas costas e nas áreas-baixas, e também os sistemas de atendimento e prevenção de saúde pública.

O processo de aquecimento do planeta também põe a possibilidade factível de savanização dos biomas amazônicos, impactando diretamente 08 países que compõem a Amazônia panamericana e mais de 250 culturas endógenas diferentes pondo em risco a sobrevivência da maior floresta tropical úmida do planeta. O governo do Estado do Amazonas já mostrou que é possível administrar este importante estado brasileiro gerando renda com preservação ambiental e mitigando as fontes emissoras de gases-estufa.
O Estado do Amazonas, Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC), Políticas Públicas na Amazônia e o Futuro do Planeta constituem dimensões políticas reais e simbólicas de uma gênesis que tem como missão a construção de estratégias, processos e estruturas voltadas para a perenidade humana no planeta e a melhoria de qualidade de vida dos cidadões.

Navegação e habitação nos trópicos, etnociências, doenças tropicais, matriz energética não-poluidora, definição de matrizes ocupacionais e preservação dos ecossistemas amazônicos, serviços ambientais; consolidação de redes meteorológicas, mudanças climáticas, monitoramento e segurança do território, recursos hídricos, recursos minerais, ciclos biogeoquímicos com ênfase aos ciclos hidrológico, de carbono, de nitrogênio e de fósforo, minerais essenciais, manejo florestal, fruticultura e psicultura, bioindústria, engenharia naval, dentre outros, constituem focos de interesse institucionais que se encontram na agenda científica em curso no Estado do Amazonas, e que já possuem resultados positivos que estão sendo incorporados, em diferentes intensidades, às Políticas Públicas.  A progressiva demanda e integração de setores produtivos associados à bioindústria, à biotecnologia e à bioinformática com o desenvolvimento de pesquisa avançada no campo da biologia molecular com as áreas de bioprospecção, biodiversidade e biomassa junto aos setores produtivos, caracterizados como plataformas tecnológicas de fitofármacos, fitoterápicos, fitocosméticos e alimentação (Silva Freitas, 2005, p. 18) pòe novos desafios e perspectivas positivas para a construção de um futuro mais justo e altero para os povos do Estado do Amazonas.

Referências bibliográficas

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Antony, L., M., K. (1997) Abundância e Distribuição Vertical da Fauna do Solo de Ecossistemas Amazônicos Naturais e Modificados; In: Projeto Bionte: Biomassa e Nutrientes Florestais-Relatório Final, pp. 249-255. MCT-INPA, Manaus, Brasil.

Corrêa da Silva, Marilene. “Metamorfoses da Amazônia”; Campinas, UNICAMP. Tese de Doutorado; 1997.

Corrêa da Silva, Marilene (2002) Metamorfoses da Amazônia, EDUA, Manaus.
Freitas, M.; Freitas Silva, M., C.; Barros, M. (2007) Diálogos com a Amazônia; Editora Valer, Manaus, AM. (em processo de editoração)

Freitas, M. (2006) Projeções estéticas da Amazônia: um olhar para o futuro; Editora Valer, Manaus.

Freitas, M. em colaboração com Castro Jr., W., E. (2004) Amazônia e desenvolvimento sustentável: um diálogo que todos brasileiros deveriam conhecer; Editora Vozes, Petrópolis, RJ.

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Manzi, A., O. ; Luizão, F. (2006) Projeto de criação do Programa de Doutorado e Mestrado ‘Clima e Ambiente’ aprovado pela CAPES / MEC em 2006.

Unesco, (2005) Em direção às sociedades do saber, Unesco, Paris.

Viana, V. (2006) Proposta para Criação de um Programa para Redução de Emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) por Desmatamento e Prestação de Serviços Ambientais nos Municípios do Sul do Estado do Amazonas de autoria da Secretaria de Desenvolvimento Sustentável do Estado do Amazonas, encaminhada ao CESTU em 26/07/2006.

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[1] O Brasil emite atualmente cerca de 70 milhões de toneladas de CO2 por ano (cerca de 1% das emissões mundiais), sem a inclusão das contribuições originadas de queimadas (dados de 2005).

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