Vai ser preciso ainda muito tempo, difícil de definir em calendário, para o homem conhecer e dominar as riquezas escondidas no interior da maior floresta tropical do mundo. Mas elas aparecem. A transformação da planta curauá em papel, um dos mais recentes exemplos de como o homem pode aproveitar os recursos da natureza em benefício dos povos da floresta, é tema da nossa terceira reportagem da série sobre programas de desenvolvimento sustentável e combate à pobreza na Amazônia paraense.
De longe, um observador desavisado apostaria estar diante de uma plantação de abacaxi. Um olhar mais atento, e mais próximo também, confirma as diferenças das folhas e a falta do fruto facilmente identificável. Mas não se trata de um erro tão grosseiro assim já que o nome científico do curauá, ananas erectifolius, revela a familiaridade com o abacaxi (ananas comosus).
Planta característica da Amazônia paraense, o curauá cresce até em solo arenoso e pouco fértil chegando a atingir entre um metro e um metro e meio de altura. A propriedade mais conhecida dessa planta foi descoberta pelos povos primitivos da floresta. Os índios já usavam a fibra resistente contida dentro das folhas longas e duras do curauá para amarrar embarcações, fazer redes e cestaria.
A sabedoria indígena e de antigos caboclos é fonte ainda de descobertas recentes ligadas à planta. Em seus trabalhos de investigação científica sobre o curauá, pesquisadores da Universidade Federal do Pará ouviram de antigos moradores que, além da fibra, a planta era usada para aliviar a dor. “ Em princípio, pesquisas do departamento de bioquímica e farmácia da UFPA revelaram uma propriedade cicatrizante”, lembra Ariberto Venturini, produtor e coordenador de um projeto de extensão universitária da área de serviço social. Intrigados com a informação de que era tradicionalmente usado no combate a dores, foram aprofundadas as investigações que confirmaram a segunda propriedade farmacológica do curauá: anestésica.
O curauá já é utilizado pela indústria automobilística para construção de freios e outras peças para veículos em substituição à fibra de vidro. O soro resultante do processamento das folhas ainda pode servir como adubo orgânico. O aproveitamento 100 por cento do curauá despertou a cobiça de produtores nacionais e até do exterior. Mudas foram plantadas no vale da Ribeira no interior paulista e também em solos japoneses, sul- africanos e até da Malásia mas sem sucesso, porque a planta não resiste a baixas temperaturas. O curauá é fiel às suas origens amazônicas e só se desenvolve em clima quente e úmido.
Uma fonte de renda alternativa para o pequeno produtor
Foto: o curauá também está sendo utilizado na indústria automobilística para substituir a fibra de vidro.
Por enquanto, a cadeia produtiva formada em torno da planta envolve o comércio de seu componente mais difundido: a fibra. Ela representa entre 6 e 8 por cento da composição de cada folha. Na pequena Santo Antônio do Tauá, cidade a 150 quilômetros da capital Belém, onde a maioria dos 50 mil habitantes vive da atividade agrícola, os produtores colhem duas safras por ano do curauá nativo. Cada planta produz entre 12 e 15 folhas de onde são extraídos cerca de 2 quilos de fibras. O produtor Ariberto mantém na zona rural da cidade uma área com 150 mil mudas que começou como projeto experimental e serviu de referência para definição das melhores aplicações das técnicas de manejo e colheita assim como dos sistemas de produção e processamento das fibras nas propriedades.
Com a assessoria dos técnicos do programa POEMA – Pobreza e Meio Ambiente na Amazônia - foram adaptados equipamentos e criado um laboratório para investir na micropropagação, ou seja, na criação de mudas in vitro que seriam distribuídas para os pequenos produtores. Uma doença atrasou a produção das mudas .
Como o curauá pode ser plantado sozinho ou no sistema agroflorestal, consorciado com outras culturas, o interesse dos pequenos produtores está crescendo. Já são mais de 400 famílias à espera de mudas para dar início ao plantio e entrar na cadeia produtiva, afirma Ariberto Venturini. “Não considero uma mina de ouro mas uma grande possibilidade para o pequeno agricultor porque o curauá você pode colher o ano inteiro. Duas colheitas por ano. Dois hectares para cada família renderia, só com a venda de fibra, uns R$ 200 por mês”.
Fibra amazônica + técnica japonesa = papel de arte único no mundo
Foto: da fábrica da Cidade Velha, em Belém, o papel é enviado para os ateliês de encadernação em Ananindeua.
Das propriedades , a fibra natural tem como destino o bairro Cidade Velha , no centro de Belém, onde está instalada a fábrica que garante todo o tratamento e transformação do produto. Desde a limpeza e separação das impurezas das fibras, início do processo, até as etapas de cozimento, entrelaçamento das fibras e outros materiais, até a secagem do papel já pronto, tudo é feito manualmente.
A técnica que permite transformar as fibras de curauá e outros materiais usados em um produto 100 por cento natural vem do Japão. A idéia surgiu durante a viagem da coordenadora do POEMA, Nazaré Imbiriba, para participar de um encontro sobre biodiversidade e programas de desenvolvimento sustentável. “Visitei pequenas unidades de produção de papel artesanal em uma ilha do Japão. Fizemos um convite para um mestre japonês vir à Belém dar um curso . Quando ele viu o curauá , ficou encantado e percebemos junto com ele que a fibra dava um papel bárbaro e aí começamos”, lembra Nazaré.
A iniciativa evoluíu para uma parceria envolvendo os governos locais e regionais, a JICA - Agência japonesa de cooperação internacional - e a Comissão Européia que viabilizaram a construção da fábrica e a formação de mão-de-obra para trabalhar com a fibra e com o papel resultante do processo. Edson Cardoso Castro passou cerca de um mês em Minamata, no interior do Japão, aprimorando a técnica washi de fazer papel artesanal. “Lá aprendi muitas coisas, muito interessantes. Pude me especializar um pouco mais. O papel lá é diferente do daqui, começando pelas fibras. Nós levamos o curauá mas eles apanharam muito. Não deu certo, acho que por causa do clima”, diz ele. Mas a experiência com técnica milenar foi bem assimilada.
Foto: o segredo do entrelaçado das fibras está no movimento dos braços.
Em tanques cobertos de água, as fibras vão se misturando dentro das formas trabalhadas pelos operários de maneira continua e delicada durante aproximadamente dois minutos. O olhar desses verdadeiros artesãos é que decide se o emaranhado de fibras está bem estruturado e em condições de virar folha de papel. “O segredo está no movimento dos braços, para frente, para os lados. Só de ver a gente já sabe se as fibras estão bem entrelaçadas ou não, se o papel vai ter resistência”, explica Ozéas Alves da Silva.
“É uma grande alegria participar desse projeto, sabendo que envolve tanta gente no campo. Quando a gente vai a uma comunidade e vê o pessoal juntando folhas, sementes e cascas para transformar em papel dá uma felicidade enorme”, diz Edson.
Criatividade e variedade de folhas
O envolvimento apaixonado desses trabalhadores com a transformação das fibras amazônicas em papel foi fundamental para que em seis anos a fábrica conseguisse produzir uma gama diversificada de produtos. O curauá foi o ponto de partida para ampliar as possibilidades que incluem a combinação de fibras com sementes, cascas e até resíduos de outras plantas como cana-de-açúcar e palmito. “Não trabalhamos com nada químico, tudo o que a gente faz é natural . A gente utiliza todo o lixo orgânico. A cana que é jogada fora depois de processada, a gente recolhe da rua. A vassoura do açaí também. A capa do palmito que é jogada fora é outro resíduo aproveitado”, comenta Ethel Valentina Pereira, coordenadora de produção da fábrica.
Foto: Ethel Valentina Pereira, coordenadora de produção das folhas de papel de arte que concorrem com a fabricação asiática.
O papel feito com as fibras amazônicas é classificado como art paper, ou seja, papel de arte, pela sua especificidade e qualidade. Esse papel pode ser vendido em folhas mas boa parte da produção tem como destino o ateliê que funciona na própria sede da Amazon Paper.
A empresa criada pelo POEMA visa fortalecer a cadeia produtiva e comercializar o papel e os produtos
derivados, concebidos por um grupo de papeleiros sob coordenação de Valter Ribeiro Carvalho.
Na oficina são preparados os moldes criados a partir da variedade de papel, que já deu origem a uma linha de encadernações, tipo agendas, blocos, luminárias de luxo, porta-retratos, cardápios e calendários. Da oficina em Belém, os modelos partem para a unidade de produção localizada em Ananindeua , município da região metropolitana de Belém.
“Foram nove meses de curso de capacitação. Hoje, nós somos quase profissionais de encadernação e cartonagem, estamos aptos para fazer todos os objetos…. Nosso projeto tem um fim social e por isso esperamos aumentar o núcleo de produção aqui e nas comunidades do interior ”, diz Valter .
A difícil briga com os asiáticos na conquista do mercado
O papel das fibras amazônias produzido pelos artesãos paraenses já é conhecido nos mercados consumidores do Brasil e também na Alemanha . Negociações estão adiantadas para enviar o produto aos Estados Unidos. A Amazon Paper tem o carimbo de qualidade internacional. O papel totalmente natural , ecológico e reciclável foi premiado com o selo Development Market Place, do Banco Mundial .
Além do reconhecimento pelo trabalho, o prêmio de 270 mil dólares contribui para manter em funcionamento, por pelo menos mais um ano, toda a cadeia produtiva envolvida no programa. A preocupação agora é a mesma que atinge a maioria dos projetos de desenvolvimento sustentável na região: criar condições para que a empresa siga o caminho da auto-sustentação.
Na disputa com os papéis mais baratos produzidos no Nepal, India e China, a desvantagem é evidente. Na ponta do lápis, a diferença chega a até 150 por cento quando a concorrência é com papel comum. A competição é mais justa quando compara-se papel do mesmo estilo e qualidade. “A diferença cai para 20 por cento”, estima a gerente de mercado da Amazon Paper, Roberta de Carvalho.
Foto: Nazaré Imbiriba, coordenadora geral da Amazon Paper: “Não empregamos mão-de-obra escrava, nem promovemos devastação”.
A empresa vai investir suas forças na identificação e no marketing em nichos de mercado específicos, apontados como saída para a sobrevivência do projeto. “O desafio é encontrar nichos que paguem por um produto que tem responsabilidade social. Uma das maiores causas do desmatamento de florestas tropicais no mundo é o corte de árvores para produção de celulose e papel”, lembra Nazaré Imbiriba, coordenadora geral do Amazon Paper.
“Esse papel precisa encontrar seus nichos e quando se fala em mercado a conversa é mais dura. Se nós conseguirmos provar que nosso papel custa 50 centavos mais caro, mas que não empregamos mão-de-obra escrava, nem infantil, nem promovemos devastação - ao contrário, nosso papel gera renda e tem qualidade - eu acredito que poderemos conquistar esses nichos. Acredito não, eu tenho fé !”, afirma.
por Elcio Ramalho
Artigo publicado em 09/08/2005
Outubro 4, 2006 at 4:11 pm
bom blogue, parabéns mesmo.
Novembro 11, 2006 at 5:21 pm
Parabéns,
vou voltar e divulgar…
abs
Janeiro 22, 2007 at 10:56 pm
Vivo en Venezuela y me gustaría conocer más acerca del proceso de fabricación del papel artístico. Cerca de donde radico se siembra el cultivo como fibra artesanal para la fabricación de chinchorros. Gracias de antemano.
Março 1, 2007 at 7:59 pm
Gostaria de saber se existe a possibilidade de comprar esse papel para confeccionar o material que será apresentado no Simposio Internacional de abacaxi.Com quem poderíamos entrar em contato para isso?
Obrigada,
Fernanda
Março 30, 2007 at 4:15 pm
Os papeis de curauá encontram-se à venda no sítio: http://www.amazonpaper.com.br
Abril 3, 2007 at 8:59 pm
Fale sobre índios dela
Abril 8, 2007 at 6:22 pm
quero que fale dos indios da amazonia e sua arte
aff
num pedi nada disso na pesquisa
mim ajuda por favor
Abril 11, 2007 at 8:28 pm
Como eu poderia adiquirir algumas mudas para experiência??
Setembro 5, 2007 at 11:30 am
Sou professor da UFSCar - Sorocaba
e trabalho com materiais compósitos reforçados
com fibras vegetais. Como posso adquirir fibras
de curauá aqui no estado de São Paulo?
Agradeço antecipadamente
Prof. Vagner R. Botaro
Setembro 26, 2007 at 6:50 pm
gostaria de saber se é possivel voce me enviar essas fotos do curauá para um trabalho academico sobre a fibra na tecnologia textil e na moda.
Dezembro 8, 2007 at 1:26 am
Fiquei encantada com esse papel, como encontrá-lo aquí em São Paulo. Como comprar cadernos com este papel?
Meus parabéns o trabalho de vocês é maravilhoso.
BOA SORTE a todos.
Janeiro 11, 2008 at 8:42 pm
Parabéns pelo projeto, gostei quando vc Nazaré; fala que tem fé, poque sabemos que é ardua a luta quando queremos gerar resultados. Voce consegui o que muitos gostariam de conseguir porem, não tiveram determinação e coragem para enfrentar os obstaculos.Projetos como este que chamomos de autosustentável vem sim ser exemplo de um bom trabalho que demomino “cadeia produtiva do curauá” gotaria de um dia conhecer pessoalmente este projeto tão mavilhoso. A Amazonias só tem é que agradecer por existirem projetos como este, que vem minimizar impactos ambientais.
Parabéns.
Rose Dias
Fevereiro 22, 2008 at 7:07 pm
Boa tarde,
Gostaria de comprar a fibra de curauá solta, sem ser em papel. Aproximadamente 50Kg já é suficiente. Como faço para encomendar estas fibras, existe algum contato para conseguir as fibras?
Agradeço a atenção!!
Abril 7, 2008 at 4:45 am
gostaria de saber onde encontramos estas folhas em fibras? achei muito interessante.Parabéns pelo trabalho!
obrigada Malu